segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Chão

Troco todas as vistas de Lisboa por um pedaço de chão. Troco o barulho das gaivotas que amo, troco largas janelas abertas de frente para o casario, para o rio, para o mar, até troco o estendal da roupa e a brisa fresca da manhã, por dez palmos de terra em que possa descansar os meus olhos no final de cada dia de agitação. Troco tudo, incluíndo a segurança virtiginosa das alturas, pelos meus pés descalsos na relva e pelas janelas de casa escancaradas, longe da intromissão dos vizinhos curiosos.



No momento em que encontrei aquele pedaço de terra velha e suja e a vi por entre as fissuras e escombros, sabia que era ali. A minha casa, a minha Macondo. O cenário da minha história, independentemente do argumento. E assim, troquei o azul riscado de aviões, pelo verde sereno da aurora. Troquei o cheiro a maresia, pelo cheiro a pão quente que me invade a casa, sem permissão, todos os dias.


Transformei a ruína em minha casa, no meu chão. E agora, que tenho um local que me pertence e onde pertenço, posso finalmente parar de andar sem destino, desfazer as malas, desencaixotar relíquias, sair do vaso e espraiar raízes terra adentro. Encontrei o meu lugar, onde posso ler livros à sombra, no embalo da música que vem de dentro, com o cheiro do café acabado de fazer. E de pão quente, a todas as horas. A calma no meio do caos da cidade. 


Como uma árvore precisa de terra para criar raízes, também eu preciso de chão para me plantar.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Às que desistiram e às que ainda estão na luta: Feliz dia da mulher!





Nunca te pedi flores, não foi isso que falhou. Pedi-te respeito, atenção, amor até, mas flores não.


Pedi-te que não me exigisses mais do que exiges a ti próprio, pedi-te que fosses equipa em vez de patrão, pedi-te que te lembrasses que dar valor às pequenas coisas do dia-a-dia que vou resolvendo por nós em vez de as tomares como algo adquirido e, bem vistas as coisas, sempre insuficiente.


Se não gosto de flores? Claro que gosto de fores, se não fossem usadas como contrição das tuas falhas. Se fossem apenas flores, claro que tinha gostado. Mas as flores perecem e daqui a duas semanas, depois de mortas, já não existirá mais nada para nos recordar desse teu grande gesto para equilibrar os pratos da balança ou para agradecer o esforço a mais que faço pela equipa.


Porque é que o faço? Bem, duas razões: a primeira é porque se não o fizer, tu não fazes e dás-te ao luxo de declarar a mulher incompetente que sou pelo facto da casa estar assim, a má mãe que sou porque me demorei mais tempo no trabalho, ou a desleixada que sou porque deixei de ir ao ginásio ou porque já nem me esforço para te agradar, que eu antes, no princípio, não era assim. A primeira razão é de facto já não querer mais discutir e ser mais uma vez criticada pelo facto de não preencher todos os critérios de ser uma boa mulher. Eu sou melhor mulher do que tu és homem e vens outra vez com esse ramo de flores como se apagasse todo um ano de críticas infundadas.


A segunda razão pela qual assumo o governo da casa e dos filhos quando esse trabalho deveria ser para uma aldeia inteira e não para uma pessoa sozinha que, no meio disso tudo, ainda tem de encontrar 10 a 12 horas livres para trabalhar, sem esperança de alguma vez ganhar o mesmo que tu, é porque eu fui educada exatamente da mesma forma que tu. Na minha casa também tudo aparecia feito, roupa lavada, comida deliciosa. Também tenho isso como ideal. Tudo impecável. E na minha casa, era uma mulher que tratava de tudo e eu sinto-me culpada por não conseguir fazer igual. Sinto-me estupidamente culpada. E tu que usas essa minha culpa contra mim e criticas, mesmo que silenciosamente, a minha insuficiência todos os dias, hoje que é dia da mulher, vens me com flores?


Logo hoje que me sinto tão culpada por me sentir culpada. Eu sei que não tenho qualquer culpa. O paradigma mudou. Ambos trabalhamos fora de casa desde que à mulher foi reconhecida a existência de cérebro, o que depois do reconhecimento da alma foi uma grande evolução civilizacional. Somos inteligentes, multifacetadas, muitas vezes até melhores que os homens que nos rodeiam, mas isso é melhor que não reparem, para não se sentirem ameaçados. Vivo rodeada de mulheres que se diminuem para não afastar os homens, porque ninguém quer estar ao lado de mulher com opiniões.


Tu fazes ideia o que eu já ouvi na vida pelo facto de ser mulher??? E eu nem sou das que mais padeço com esta condição. Talvez devesse deixar de resistir, eu sei, parar de lutar e resignar-me como a maioria. Tratar eu de tudo, prejudicar a minha progressão de carreira, já mais difícil à partida e faltar eu, mais uma vez, para levá-los ao médico. Talvez devesse deixar-me destas coisas de dizer que sou feminista. Até porque as mulheres, deste cantinho latino da Europa, ainda acham que as feministas ou são lésbicas ou cabras que não fazem a depilação.


Talvez devesse esquecer as meninas que à nascença são afogadas na Índia, ou as que são sujeitas a excisão genital na adolescência, as crianças que são obrigadas a casar, as mulheres que vivem sem possibilidade de decidir o seu destino sem autorização do marido, as meninas a quem não é permitido estudar. Talvez devesse esquecer-me de tudo isso e assumir de uma vez por todas o papel que esta sociedade escolheu para mim, resignar-me e dizer, como as outras, que não sou feminista, justificando com o facto de o feminismo já não ser necessário. Estou exausta e se calhar é o melhor que tenho a fazer...


Nunca te pedi flores, mas obrigada, as flores são lindas e agradeço o gesto, mas a sua insuficiência é de uma atrocidade tal que não me consegui calar. Desculpa lá ter explodido assim. Sim, se calhar são as hormonas ou outra coisa qualquer daquelas que só as mulheres têm de suportar. Deve ser isso. Deixa-te estar no sofá, vou buscar uma jarra.