quarta-feira, 8 de março de 2017

Às que desistiram e às que ainda estão na luta: Feliz dia da mulher!





Nunca te pedi flores, não foi isso que falhou. Pedi-te respeito, atenção, amor até, mas flores não.


Pedi-te que não me exigisses mais do que exiges a ti próprio, pedi-te que fosses equipa em vez de patrão, pedi-te que te lembrasses que dar valor às pequenas coisas do dia-a-dia que vou resolvendo por nós em vez de as tomares como algo adquirido e, bem vistas as coisas, sempre insuficiente.


Se não gosto de flores? Claro que gosto de fores, se não fossem usadas como contrição das tuas falhas. Se fossem apenas flores, claro que tinha gostado. Mas as flores perecem e daqui a duas semanas, depois de mortas, já não existirá mais nada para nos recordar desse teu grande gesto para equilibrar os pratos da balança ou para agradecer o esforço a mais que faço pela equipa.


Porque é que o faço? Bem, duas razões: a primeira é porque se não o fizer, tu não fazes e dás-te ao luxo de declarar a mulher incompetente que sou pelo facto da casa estar assim, a má mãe que sou porque me demorei mais tempo no trabalho, ou a desleixada que sou porque deixei de ir ao ginásio ou porque já nem me esforço para te agradar, que eu antes, no princípio, não era assim. A primeira razão é de facto já não querer mais discutir e ser mais uma vez criticada pelo facto de não preencher todos os critérios de ser uma boa mulher. Eu sou melhor mulher do que tu és homem e vens outra vez com esse ramo de flores como se apagasse todo um ano de críticas infundadas.


A segunda razão pela qual assumo o governo da casa e dos filhos quando esse trabalho deveria ser para uma aldeia inteira e não para uma pessoa sozinha que, no meio disso tudo, ainda tem de encontrar 10 a 12 horas livres para trabalhar, sem esperança de alguma vez ganhar o mesmo que tu, é porque eu fui educada exatamente da mesma forma que tu. Na minha casa também tudo aparecia feito, roupa lavada, comida deliciosa. Também tenho isso como ideal. Tudo impecável. E na minha casa, era uma mulher que tratava de tudo e eu sinto-me culpada por não conseguir fazer igual. Sinto-me estupidamente culpada. E tu que usas essa minha culpa contra mim e criticas, mesmo que silenciosamente, a minha insuficiência todos os dias, hoje que é dia da mulher, vens me com flores?


Logo hoje que me sinto tão culpada por me sentir culpada. Eu sei que não tenho qualquer culpa. O paradigma mudou. Ambos trabalhamos fora de casa desde que à mulher foi reconhecida a existência de cérebro, o que depois do reconhecimento da alma foi uma grande evolução civilizacional. Somos inteligentes, multifacetadas, muitas vezes até melhores que os homens que nos rodeiam, mas isso é melhor que não reparem, para não se sentirem ameaçados. Vivo rodeada de mulheres que se diminuem para não afastar os homens, porque ninguém quer estar ao lado de mulher com opiniões.


Tu fazes ideia o que eu já ouvi na vida pelo facto de ser mulher??? E eu nem sou das que mais padeço com esta condição. Talvez devesse deixar de resistir, eu sei, parar de lutar e resignar-me como a maioria. Tratar eu de tudo, prejudicar a minha progressão de carreira, já mais difícil à partida e faltar eu, mais uma vez, para levá-los ao médico. Talvez devesse deixar-me destas coisas de dizer que sou feminista. Até porque as mulheres, deste cantinho latino da Europa, ainda acham que as feministas ou são lésbicas ou cabras que não fazem a depilação.


Talvez devesse esquecer as meninas que à nascença são afogadas na Índia, ou as que são sujeitas a excisão genital na adolescência, as crianças que são obrigadas a casar, as mulheres que vivem sem possibilidade de decidir o seu destino sem autorização do marido, as meninas a quem não é permitido estudar. Talvez devesse esquecer-me de tudo isso e assumir de uma vez por todas o papel que esta sociedade escolheu para mim, resignar-me e dizer, como as outras, que não sou feminista, justificando com o facto de o feminismo já não ser necessário. Estou exausta e se calhar é o melhor que tenho a fazer...


Nunca te pedi flores, mas obrigada, as flores são lindas e agradeço o gesto, mas a sua insuficiência é de uma atrocidade tal que não me consegui calar. Desculpa lá ter explodido assim. Sim, se calhar são as hormonas ou outra coisa qualquer daquelas que só as mulheres têm de suportar. Deve ser isso. Deixa-te estar no sofá, vou buscar uma jarra.







 


sexta-feira, 11 de março de 2016

De como amo flamenco - "Jodida pero contenta" de Concha Buika


Jodida pero contenta é uma ode a quem, como eu, já tomou a decisão de desistir, de fechar um capítulo, de sair de algo que não era o melhor para si. A decisão não é fácil mesmo quando ponderados todos os factores. É uma decisão fodida. Mas quando no nosso íntimo sabemos que é a única certa, o mundo tem o condão de nos mostrar, mais cedo ou mais tarde, que a razão está do nosso lado. E com medo, mas com força, o sentimento só pode ser esse: jodida pero contenta!
 
Passado mais de um ano, estou só contenta. Da esperança de o mundo poder ser meu, passei à realidade da alegria. E é também com alegria nostálgica que oiço esta música. Com a alegria que vem da força que tenho, da mulher que sou e do facto de as rédeas da minha vida estarem nas minhas mãos. Sem arrependimentos.

Para a estória da nossa vida ser fantástica, temos de ser nós a escrevê-la. E na minha estória, que aceito na sua totalidade, sem rasuras, já se podem ler muitos capítulos extraordinários. Só espero ter a sorte de poder viver muitos mais, com esta alegria.
 
Enjoy!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Lembra-te que és pó e ao pó voltarás…

No início dos 40 dias de quaresma, que representam os 40 anos de caminho do povo judeu e os 40 dias de jesus no deserto, somos relembrados, mais uma vez, da nossa insignificância e fragilidade.
 
Somos todos pó, átomos de carbono, oxigénio, nitrogénio, hidrogénio, fósforo e no meu caso nicotina, que se vão agrupando segundo regras invisíveis às quais somos totalmente alheios. Nascemos do pó, voltaremos ao pó, e nos entretantos vamos pagando impostos, são estas as nossas únicas certezas.
 
De resto nada é certo, nem a hora em que tudo acaba, nem o lugar, nem a razão. Somos pó, e quando somos confrontados com essa realidade, quando nos lembramos que o somos, os nossos alicerces estremecem e durante uns tempos tentamos perceber o sentido.
 
E não chegamos a conclusão nenhuma, porque não há sentido algum, restando-nos apenas ir vivendo, na esperança, de que do pó renasça uma fenix e de que um dia possamos estar todos juntos outra vez.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Intermezzo


Enquanto pondero variáveis a cada passo que dou nesta calçada de lisboa, com medo de errar o passo, de tropeçar, de me perder entre caminhos e atalhos, de entrar em becos sem saída… enquanto o medo me congela várias vezes o andamento e das outras vezes me faz acelerar em busca de algo que não sei o que é, uma explicação ou lógica talvez, uma porta entreaberta ou uma janela encostada, há quem se encontre num intermezzo a aguardar por um sinal qualquer da graça de Deus, há quem lute pela vida no sentido mais cruel da expressão, numa cama de hospital, com o coração nas mãos e a coragem no peito e no sorriso, que aposto que se mantém.

A cada passo que dou neste meu percurso, no caminho profissional e pessoal, que às vezes é mais tortuoso do que o previsto, penso nestas partidas que a vida nos vai pregando sem avisar, e no sentido que tudo isto tem (ou não) e se vale mesmo a pena.

A cada passo que dou rogo para que tudo se resolva, para que este intermezzo na vida de quem está à espera de saber se pode continuar seja breve. As minhas angústias são fúteis em comparação com as angústias de quem tem filhos para criar e não sabe se o vai poder fazer ou se vai ter de o fazer sozinho. E por essa razão, nos últimos tempos os meus passos, preces e pensamentos são dedicados a ela e a quem está como ela, a fazer contas aos dias e às horas. Que este intermezzo acabe rápido e que um dia, quando olhares para trás, seja apenas uma pequena parte na grande composição musical que é a tua vida.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

In memoriam

As the years go by, I’ve been losing all my references. It's strange to live in a world without David Bowie. I'm getting old and I don't like this feeling of constant loss.

At least music is eternal and we will always have your songs.
So, let's dance.

Rest in Peace David. Your Space Oddity starts now. Thank you for everything.

"Ground Control to Major Tom
Ground Control to Major Tom
Take your protein pills and put your helmet on
Ground Control to Major Tom (Ten, Nine, Eight, Seven, Six)
Commencing countdown, engines on (Five, Four, Three)
Check ignition and may God's love be with you (Two, One, Liftoff)

This is Ground Control to Major Tom
You've really made the grade
And the papers want to know whose shirts you wear
Now it's time to leave the capsule if you dare
"This is Major Tom to Ground Control
I'm stepping through the door
And I'm floating in the most peculiar way
And the stars look very different today
For here am I sitting in my tin can
Far above the world
Planet Earth is blue
And there's nothing I can do

Though I'm past one hundred thousand miles
I'm feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell my wife I love her very much, she knows
Ground Control to Major Tom
Your circuit's dead, there's something wrong
Can you hear me, Major Tom?
Can you hear me, Major Tom?
Can you hear me, Major Tom?
Can you hear And I'm floating around my tin can
Far above the Moon
Planet Earth is blue
And there's nothing I can do."

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

The Life Aquatic or a Life on Mars?


De um dos melhores filmes, com os melhores actores e com uma das melhores bandas sonoras de sempre, faltava o melhor poster. Não é um poster oficial, este foi criado por James Gilleard. E cada vez que olho para o Bill só me lembro de Seu Jorge a cantar o Life on Mars de David Bowie em versão portuguesa do Brasil. Fica o poster e a letra.

E como o Bill está com as cores da quadra, qual S. Nicolau dos tempos modernos, ficam também os meus votos (atrasados) de Feliz Natal!


Muitas vezes o coração
Não consegue compreender
O que a mente não faz questão
Nem tem forças pra obedecer
Quantos sonhos já destruí
E deixei escapar das mãos
Se o futuro assim permitir
Não pretendo viver em vão
Meu amor não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
No infinito do céu azul
Pode ter vida em Marte
Então, vem cá me dá a sua língua
Então vem, eu quero abraçar você
Seu poder vem do sol
Minha medida
Meu bem, vamos viver a vida
Então vem, senão eu vou perder quem sou
Vou querer me mudar para uma life on mars
Muitas vezes o coração
Não consegue compreender
O que a mente não faz questão
Nem tem forças pra obedecer
Quantos sonhos já destruí
E deixei escapar das mãos
Se o futuro assim permitir
Não pretendo viver em vão
Meu amor, não estamos sós
Tem um mundo a esperar por nós
No infinito do céu azul
Pode ter vida em Marte
Então, vem cá me dá a sua língua
Então vem, que eu quero abraçar você
Seu poder vem do sol
Minha medida
Meu bem, vamos viver a vida
Então vem, senão eu vou perder quem sou
Vou querer me mudar para uma life on mars

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Vade Retro(spectiva) 2015

2015 (MMXV) é um Ano Comum do Século XXI, da Era Comum, que teve início a uma Quinta-feira, segundo o calendário Gregoriano. Para mim, foi tudo menos um ano comum, independentemente das noções de comum que possam existir neste planeta.
 
O 15.º ano do terceiro milénio, o 6.º ano da década de 2010. O 31.º ano da minha vida. E apesar de tudo, a terra move-se e continuará a mover-se. A insignificância dos eventos manifestados neste meu ano de 2015 na trajetória do planeta é, e sempre será, inabalável.
 
2015 foi designado o Ano Internacional da Luz e o Ano Internacional dos Solos pela 68.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Na minha assembleia geral subscrevemos a mesma designação. Foi definitivamente o ano da luz e do chão. Os raios de luz chegaram ao chão, onde me encontrava prostrada. E eu que só me queria erguer... E surpreendentemente, o meio copo, a média ponderada do bom e do mau, da luz e do chão, não funcionou da forma mais eficaz.  E se o mau e o bom não são um meio copo aceitável, o péssimo e o óptimo não fazem um copo que eu queira beber. Nunca mais.
 
2015 teve mais um segundo, que foi acrescentado à meia-noite do último dia de junho. Talvez tenha sido por isso que tenha passado tão devagar... E tão depressa. Talvez seja essa a razão deste cansaço. Por vezes, um segundo faz toda a diferença. Ano Comum... Parece que estão a gozar.
 
Vade retro 2015. Não voltes nunca mais.
 
 
 
 
 
P.S.: 2016 (MMXVI) é um Ano Bissexto do Século XXI, da Era Comum, que terá início a uma Sexta-feira, segundo o calendário Gregoriano. O 16.º ano do terceiro milénio, o 7.º ano da década de 2010. O 32.º ano da minha vida. Foi designado o Ano Internacional das Leguminosas pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Segundo o Horóscopo Chinês 2016 será o ano do macaco :) 
 
2016 falamos daqui a uns dias.. Ainda não percebi a questão das leguminosas e tenho umas coisas para te explicar.
 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

We will always have Paris...

 
 
Allons enfants de la patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L'étendard sanglant est levé
L'étendard sanglant est levé
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats
Ils viennent jusque dans vos bras
Égorger vos fils, vos compagnes
Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!
Marchons, marchons
Qu'un sang impur abreuve nos sillons!
Français, en guerriers magnanimes
Portez ou retenez vos coups!
Épargnez ces tristes victimes
À regret s'armant contre nous
À regret s'armant contre nous
Mais ces despotes sanguinaires
Mais ces complices de bouillé
Tous ces tigres qui, sans pitié
Déchirent le sein de leur mère!
Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!
Marchons, marchons
Qu'un sang impur abreuve nos sillons!
Amour sacré de la patrie
Conduis, soutiens nos bras vengeurs!
Liberté, liberté chérie!
Combats avec tes défenseurs
Combats avec tes défenseurs
Sous nos drapeaux, que la victoire
Accoure à tes mâles accents
Que tes ennemis expirant
Voient ton triomphe et notre gloire!
Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!
Marchons, marchons
Qu'un sang impur abreuve nos sillons!

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Alguma coisa está fora da ordem

É esta a banda sonora dos meus pensamentos quando vejo o que tem vindo a acontecer à humanidade desde há muitos anos atrás.
 
Agora erguem-se muros na europa e o nó cego da minha garganta aperta mais um pouco e o meu cérebro paralisa por falta de capacidade em processar as notícias que chegam sobre o desamor que cresce no mundo alegadamente civilizado.
 
Aceitar a realidade de que os homens são maus, não por desconhecimento, mas por uma vontade própria, informada e egoísta  é uma tarefa hercúlea, na qual tenho vindo debater-me ao longo dos anos. Ainda assim a minha alma, bem como o meu corpo, continuam a rejeitar a realidade de só vivermos para dentro. A folha que eu fui, já não me lembro bem quando, transformou-se em bola de papel, amarfanhada, arrastada pelo vento e pontapeada por quem passa na rua, enquanto tento perceber a lógica irracional de ter sido colocada num mundo tão errado para mim.
 
Mas quando oiço esta música, lembro-me que como eu há muitos que também não compreendem a crueldade da ordem desorneda em que gastamos os nossos dias. Quando trauteio a letra que sei de cor, porque a repetia com as minhas primas a caminho da praia, sei que tenho de fazer alguma coisa. Ainda só não sei o quê.



 "Eu não espero pelo dia Em que todos Os homens concordem
Apenas sei de diversas Harmonias bonitas Possíveis sem juízo final..."

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

My Notting Hill :)

"- I can't believe you have that picture on your wall.
-You like Chagall?
- I do. It feels like how being in love should be. Floating through a dark blue sky.
- With a goat playing the violin.
- Yes - happiness isn't happiness without a violin-playing goat"

 

terça-feira, 11 de março de 2014

Love is viral or "the impossible not to smile video"

 
 
 
"This is pretty scary…" says one of the guys before the kissing begins. Isn’t it always?
Strangers or almost familiar faces replicate, since the beginning of times, and over and over again until the end of humanity, the fear and the nervous laughs that come before a first kiss (and the ones that follow). But, isn’t the repetition of the inhaled passion that occurs during and the undisguisable smile of joy that appears immediately after (and lingers for a while) that makes us all human?
The truth is that nothing compares to the beauty and the emotion carried by a first kiss between two people. The stare into another’s sole through his/her eyes and the embrace that instinctively occurs every single time. And, strangely enough, with our eyes closed, we feel like we can conquer the world.
This video evidences the perfection of some of those moments, usually missed because is quite impossible to pay attention with the eyes wide shut.
Thus, today I say thanks to those strangers for sharing such precious moments with the rest of us. And, for reminding me that, in fact, I am a hopeless romantic.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Happy New Year to you all!



Next year
Things are gonna change
Gonna drink less beer
And start all over again

Gonna read more books
Gonna keep up with the news
Gonna learn how to cook
And spend less money on shoes

Gonna pay my bills on time
File my mail away, everyday
Only drink the finest wine
And call my gran every Sunday

Well resolutions
Well baby they come and go
Will I do any of these things?
The answer's probably no

But if there's one thing, I must do
Despite my greatest fears
I'm gonna say to you
How I've felt all of these years

Next year
Next year

I'm gonna tell you how I feel
I'm gonna tell you how I feel

Well, resolutions
Baby they come and go
Will I do any of these things?
The answer's probably no

But if there's one thing, I must do
Despite my greatest fears
I'm gonna say to you
How I've felt all of these years

Next year
Next year
Next year




segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Do Seu (Meu / Nosso) Jorge

Em 2006, na preparação de mais um Sudoeste com o gang, fui perscrutar o cartaz para tentar compreender o que daquela lista de nomes interminável valia a pena ouvir. "Encontrei" as músicas dos artistas que achei valerem a pena e gravei um CD para ouvirmos a caminho, no estágio de mais um verão que ficou marcado na história da minha vida. Seu Jorge constava da referida compilação. O gang ouviu e aprovou e assim, no dia e à hora marcada, lá estávamos nós, na tenda alternativa com mais 40 pessoas, mesmo ao início da noite.
 
O Seu Jorge decidiu, de cigarro da boca, abrir as hostilidades com um "Não vou nada bem" a roçar o metal, alternado com dezenas de palavrões berrados desafinadamente ao microfone. As minhas amigas ficaram em pânico. Era a tenda alternativa e ali já tinha visto bem pior. E por isso, foi de braços abertos que nos deixámos ficar e recebemos, em primeira mão, um pequeno grande concerto de um músico a seguir. A honestidade da sua desafinação rouca lançada com toda a liberdade no perfeito compasso do funk, samba e mpb, prendeu-me para sempre àquele preto magricela, fazendo dele o Meu Jorge. E desde aí, alguns albuns e outros tantos concertos mais tarde, continuo fiel.
 
Mais uma vez, este ano, numa arena onde cabiam 50 tendas alternativas, lá fui ouvir o meu Jorge que já não era só meu mas de um mar de gente. É um facto, meu Jorge virou moda mas nem isso me impediu de ir vê-lo.
 
E amei cada segundo. Cada balada, cada minuto dos trinta que demorou a recitar mais um texto interventivo, como é habitual nos seus espectáculos.
 
No entanto, à minha volta, multiplicavam-se as expressões de tédio e de arrependimento, porque é que a seca do preto não se cala e toca qualquer coisa para a malta dançar. Tentei não ligar e segui gritando e cantando com o resto dos meus pulmões a alegria que queria manter e contagiar, apesar de tudo.
 
Com a "Burguesinha" e a "Amiga da minha mulher" meu Jorge falou ao coração das massas e as massas responderam na excitação de mais uma música de verão. No entanto, meu Jorge é mais do que duas músicas óptimas para soltar o pandeiro. E isso causou desilusão à burguesia que ansiava dançar repetições da mesma fórmula de seu sucesso. Mas meu Jorge é o Jonhy Depp da música brasileira, que apesar dos blockbusters que lhe trazem muito dinheiro, o qual agradece, não se conforma ao que esperam dele e mantem-se inalterado no talento da sua honestidade atroz.
 
Desde o tive razão, ao menino que vende balas no trem, tudo era tão bom que a minha voz exultava de alegria por saber o privilégio que era lá estar com ele. Já mais para o fim, antes dos hits da noite, ele cantou só mais uma balada, a minha balada, Life on Mars, um cover adaptado para português da música de David Bowie e que faz parte da delícia de filme que é o Life Aquatic. E que, salvo erro, nunca tinha feito parte dos seus alinhamentos nos concertos em que estive presente.  Aquilo era meu Jorge, exatamente à minha medida e eu estava feliz.
 
E o que dizer da ressaca do concerto, quando no dia seguinte a burguesia em peso critica o meu Jorge por ele ser exactamente o que ele, tornando viral um downgrade de Bestial a Besta, literalmente da noite para o dia?
 
Quase nada. É um misto de tristeza por não o compreenderem e não saberem o que perdem; de indiferença, porque sei que é para o lado que o meu Jorge dorme melhor; e de alegria, porque sei que no próximo concerto a burguesia que foi desta vez vai ficar em casa, e pode ser que assim sobre alguma cerveja. Independentemente do local do próximo concerto do meu Jorge, sei que lá estarei.
 
Porque quem gosta, gosta sempre. Enjoy!
 
 
 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Da escrita...



Com catorze anos as pessoas já tinham computador e jogavam Prince of Persia. Mas o que eu queria mesmo era uma máquina de escrever. Foi dos melhores presentes que alguma vez recebi, sendo o meu maior tesouro. Actualmente, tendo abraçado a tecnologia, olho com nostalgia para o tempo em que premia as duras teclas da Olivetti, com o cuidado de não me enganar e ter de começar de novo. Hoje em dia tudo pode ser reescrito, corrigido, alterado, apagado. Naquela altura, as coisas eram mais permanentes, com tudo de mau e de bom que isso signifique. Mas uma coisa permanece, independentemente da tecnologia... A vontade inultrapassável de jorrar pensamentos no papel, seja físico ou virtual. A necessidade de soltar as palavras de dentro para fora, como se me faltasse o ar. O desejo que estas vivam depois de mim. O amor pela escrita fez de mim o que sou hoje, fez-me optar por um caminho que talvez não fosse o melhor para mim. E ao olhar para a Olivetti vejo um monumento do que fui e do que sou e do que não pode nunca ser esquecido. Eu sou na escrita e a escrita é em mim. E por muito que a falta de tempo oblitere este meu amor, sei que, mais cedo ou mais tarde, posso e vou voltar a ela. Porque nas palavras encontrei o amor da minha vida. 

Bridget trying to survive in Africa ou como NÃO conduzir pela esquerda




A ideia nunca foi eu conduzir em África. As estradas são uma confusão, o volante era à direita, a condução à esquerda, tal como o manípulo das mudanças, o meu namorado já não gosta da minha condução em Portugal, quanto mais com tudo ao contrário e eu, não fazia mesmo questão nenhuma de jogar à pista de obstáculos, qual jogo da playstation, mais difícil de sempre. T.I.A.

No entanto, os táxis tinham preços absurdos e nós somos de passear portanto, resolvemos, naquele domingo, logo à chegada do aeroporto, alugar o carro mais barato que lá tivessem e fazer-nos ao caminho.
 
So far so good. O meu namorado apesar de ser um bocado distraído, o que não convém nada, principalmente naquelas estradas, lá se foi desviando das crianças que se atravessavam, dos cães que tinham elegido a estrada como the place to be, dos carros estacionados na faixa de rodagem, das valas de 1 metro de profundidade nas bermas, nas quais me visualizei a cair vezes sem conta. Com o coração na boca lá fui, tentando manter o silêncio e rezando a todos os deuses locais para que chegássemos vivos ao destino. E ao fim de uma hora de curva e contra curva conseguimos. Julgava eu que o pior já tinha passado. Mas não.

Passado dois dias fomos a Port Louis sendo que a viagem de ida, comparada com a anterior, foi um passeio no parque. As estradas para Norte eram relativamente melhores passando por muito menos povoações e apenas quando chegámos à cidade é que nos infiltrámos no caos instalado, durante uns 20 minutos, até percebermos que tínhamos chegado ao nosso destino e arranjarmos um parque onde estacionar. O regresso foi um pouco pior... À noite, sem iluminação, foi bastante mais difícil reconhecer o caminho de volta sendo que só tínhamos um mapa turístico como companhia, onde a maior parte das estradas e localidades não tinham lugar. Tentámos orientarmo-nos pelas estrelas e pela geografia das montanhas até que com a ajuda de algum sentido de orientação (graças a Deus que andei 12 anos nos escuteiros) e de sorte, reconhecemos um monumento Hindu que já fazia parte do meu portefólio de fotografias da paisagem, desde essa manhã. Mais uma vez, o alívio da chegada era atroz.

Porém, tudo estava prestes a mudar. Quinta-feira decidimos ir conhecer as Tamarin Falls, uma série de sete cascatas localizadas no sudoeste da ilha, junto a Le Morne, paisagem considerada património mundial pela Unesco. Depois de atravessarmos a ilha de um ponta à outra chegámos ao cume da montanha de onde a água caía e encontramos um senhor que nos perguntou se queríamos ver as cascatas. Quando respondemos que sim aquele limitou-se a dizer follow me com uma pronúncia afrancesada e nós limitámo-nos a segui-lo.

Nisto, começámos a descer pela selva, assentado os pés entre rochas e raízes cobertas de lama e agarrando todas as lianas ou ramos que pudessem abrandar a nossa descida. Começava a ser picada por insectos e indagava que a aventura poderia acabar com o nosso suposto guia a raptar-nos para nos vender em partes. Até que chegámos à primeira cascata. Uma vista de cortar a respiração, especialmente para quem se debruçou naquele parapeito natural que me fazia tremer os joelhos só de imaginar. Ainda assim, mantendo-me uns passos atrás, a uma distância segura, respirei fundo aqueles segundos de felicidade. Depois, esta sensação repetiu-se quatro vezes mais nas cascatas seguintes até que me apercebi as horas que eram e decidimos fazer o caminho de volta.

De volta ao terceiro patamar, informámos o guia que gostávamos de tomar banho nas cascatas ao que este assentiu e disse que aquele era um bom lugar para fazê-lo. O meu namorado que queria mergulhar, perguntou ao guia se era seguro saltar para a água ao que ele respondeu que sim. Só depois de ver a cara com que o meu namorado emergiu da cascata é que concluímos com toda a certeza, que o guia não percebia uma palavra do que lhe tínhamos dito. Ele estava cheio de dores, algo se tinha passado..

Saiu da água e o pé, apesar de a água estar gelada, já estava o dobro do tamanho. Vestimo-nos a correr e ele começou a escalada que ainda era longa até ao topo da montanha onde tínhamos estacionado o carro, antes que a adrenalina se fosse e as dores se instalassem. Eu fiquei para trás à espera do guia, que resolveu entrar na água com todos os cuidados e banhar-se. Finalmente chegámos ao carro e ele, mesmo cheio de dores, insistiu em conduzir em direcção ao hospital mais próximo. Pequeno pormenor, não fazíamos ideia onde é que era, mas isso não é nada relevante.

Ao fim de uma hora e meia, a noite tinha caído, eram seis da tarde e chagávamos ao hospital público de Rose Belle, zona indiana, que nos tinha sido indicado como o melhor. Apesar das dores, o medo era ainda maior e o meu namorado tinha conduzido até ao hospital, sem sequer se queixar. Entrámos no hospital, eu a fazer papel de moleta e o meu namorado de sassi perere. Ele foi levado imediatamente de cadeira de rodas, eu fiquei a fazer o check in, e quando me juntei a ele na sala de triagem, já tínhamos cinco médicos à nossa volta a tentar fazer o diagnóstico. Éramos os únicos caucasianos no hospital, sendo que os únicos caucasianos na ilha eram turistas e normalmente não saiam do resort. Depois de termos contado como é que aquilo tinha acontecido, e de termos causado o momento de diversão da semana da equipa médica, resolveram, dado que iríamos fazer um voo de 12 horas em 2 dias, colocar gesso no pé abatatado, não fosse o diabo tecê-las. Durante esse processo perguntaram de onde vínhamos. O meu namorado, homem de pouca fé disse Europe, na certeza de que nas Maurícias nunca tinham ouvido falar de Portugal, mas eu, concretizei, We're from Portugal, e eis o nosso espanto quando os médicos, para além do típico Cristiano Ronaldo, disseram que tínhamos um óptimo Inglês para Portugueses. Para além disso tivemos direito a uma aula de história, as Maurícias foram descobertas por Portugueses. Porém, não tendo dado a importância devida àquele paraíso, deixamos os créditos e ocupação, aos holandeses.

Meia hora depois, já com a receita aviada, e sem pagar um único tostão, saímos felizes do hospital dada a simpatia e profissionalismo nada expectável num hospital de terceiro mundo. Mas o grande problema surgia agora. Nem pensar que o meu namorado ia conduzir com gesso e por isso, cabia-me a tarefa hercúlea de nos fazer chegar sãos e salvos ao hotel, a cerca de uma hora de distância.

Problema número dois: sou míope e não levei óculos para férias, não ia propriamente precisar deles, pensava eu. Problema número três: iluminação pública nas ruas e estradas não existe. Não ia ser nada fácil mas não havia outra opção. Liguei o carro, com a mão esquerda encaixei a primeira e com a mão direita tentei ligar o pisca, sendo que, em vez disso liguei o limpa pára-brisas. Espectáculo.

Lá seguimos então, pela esquerda, o meu namorado a ver-se dentro da berma com o carro capotado, e eu a visualizar a mesma imagem cada vez que ele gritava olha a berma!!. Tensa como nunca estive, as dores nas costas e no pescoço instalada, e eu não via nada à frente. Pior que conduzir na escuridão, só mesmo conduzir na escuridão a ser encandeada pelos carros que vinham em sentido contrário. Fuck!! Fazer rotundas ao contrário até foi divertido até perceber que as prioridades era todas ao contrário. Já tinha passado uma hora e ainda devíamos estar a meio do percurso. Saímos da estrada principal e virámos para o caminho que nos levaria ao hotel, caminho esse onde as aldeias de beira de estrada se repetiam, tal como todos os perigos que elas traziam: crianças, cães, pessoas, carros parados, ultrapassagens violentas (porque ninguém tinha paciência de conduzir atrás do nosso carro por mais de 1 minuto). As lombas nível 8 na escala de Isaltino também não facilitavam. Para além de tudo, quando me apercebia que vinha um carro na direcção contrária e que em breve deixaria de ver, parava o carro - antes isso do que me capotar o carro no meio do nada ,julgava eu. Mas cada vez que parava o carro, a certeza no meu namorado de que eu não conseguia ver um elefante à minha frente (o que era verdade!), crescia, na mesma medida que o seu pânico se instalava, tal como o meu.

Ao fim de duas horas, a cerca de dez minutos do hotel, passei por um carro que vinha da esquerda que me buzinou. Pois é, ele é que tinha prioridade, mas tudo bem. O meu namorado pediu encarecidamente que eu parasse o carro porque preferia ir ao pé-coxinho. Se não estivesse tão nervosa ter-me-ia rido mas não o fiz. Depois de convencê-lo que chamar um táxi no meio do nada não seria uma boa ideia, lá voltou para o carro e dez minutos depois chegámos ao hotel.

Esta experiência vai definitivamente entrar para as coisas mais "diferentes" que já fiz na vida: conduzir pela esquerda de olhos vendados! - check! Mas a moral da história que retirámos daqui é essencialmente esta: não acreditar nos guias que nos dizem que é seguro saltar para a água antes dos próprios o fazerem e nunca, mas nunca, ir para lado nenhum sem óculos!




 
 
 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Não há longe, nem distância... NOT

Não é a primeira vez que escrevo sobre o tema. A cada dia que passa tenho mais pessoas espalhadas pelo mapa e mais referências que me fazem lembrar todos os dias. Assim, a mera menção a cidades e países que antes não me despertavam qualquer emoção, hoje em dia provocam-me aquele sorriso angustiado que só se sente quando a distância é maior. Sei que é muito português este meu sentir mas, hoje, encontrei um novo nome para o que sinto.
 
Antes, ouvir falar da Bulgária era completamente indiferente, mas hoje, quando acontece, sinto que arrancam um pedaço de mim, pela distância que jaz entre as minhas primas e eu, que insisto teimosamente em não sair do lugar. Mas depois penso que estão todos bem, e que emigrar é preciso e tento acalmar o meu peito com as memórias dos sorrisos e brincadeiras de criança.
 
Hoje, o relato que oiço na rádio do trânsito na VCI e na AeP já não é algo que ignoro mas o momento em que penso apenas nos amigos que fiz naquela cidade que me soube acolher tão bem, durante os meses em que passeie intermitentemente nas suas ruas e na amiga que trocou Lisboa por aquela cidade. Mas depois penso que não estamos assim tão longe e que vamos ter mil e uma oportunidades para nos  reencontrar e repetir as gargalhadas e cigarros... e tento anular a minha vontade de me meter no Alfa e partir.
 
Actualmente, quando se fala em Angola, saltam-me no estômago vinte nomes de amigos que me fazem tanta falta aqui perto. E depois penso que eles estão a fazer a coisa certa e embriago-me na esperança do regresso, contando os meses e anos que correm no calendário, uns dias mais depressa e outros nem por isso e tento pensar noutra coisa qualquer, sem resultado visível que não a impaciência.
 
A saudade enche-nos a alma porque é a maior demonstração de que sentimos, de que somos gente e de que estamos a fazer qualquer coisa bem, porque o amor que temos saiu de nós e está espalhado por aí. Na realidade e infelizmente, passo meses sem ver os que amo, mesmo quando estes estão perto, o que é a maior estupidez que faço no repetir desperdiçar dos meus dias. Mas a vida tem destas coisas e a única coisa que nos resta é não desistir. Mas quando a distância é maior, a saudade ultrapassa-se a si mesma e transforma-se em lonjura que não é mais do que a falta que sentimos mais a impossibilidade de ser para breve o reencontro. E dói.
 
 "Não há longe nem distância" sempre foi um dos meus motes, porque sempre me significou que nada é impossível quando se quer muito, quando se ama muito. Porque quando assim é, mesmos nos confins da terra, trazemos quem nos faz falta sempre connosco, mesmo quando partem sem regresso.
 
Hoje, porém, não é um desses dias. Porque há dias em que a alma está do avesso e a distância magoa e aperta no peito quando tentamos respirar.
 
Por isso, hoje, sinto que há demasiado longe e distância a mais, entre mim e aqueles pontos no mapa que me fazem sorrir. Por isso, à pergunta o que sentes, hoje não respondo borboletas. Respondo que sinto lonjuras. Respondo que sofro de distâncias.