Mostrar mensagens com a etiqueta Aconteceu. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aconteceu. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

We will always have Paris...

 
 
Allons enfants de la patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L'étendard sanglant est levé
L'étendard sanglant est levé
Entendez-vous dans les campagnes
Mugir ces féroces soldats
Ils viennent jusque dans vos bras
Égorger vos fils, vos compagnes
Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!
Marchons, marchons
Qu'un sang impur abreuve nos sillons!
Français, en guerriers magnanimes
Portez ou retenez vos coups!
Épargnez ces tristes victimes
À regret s'armant contre nous
À regret s'armant contre nous
Mais ces despotes sanguinaires
Mais ces complices de bouillé
Tous ces tigres qui, sans pitié
Déchirent le sein de leur mère!
Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!
Marchons, marchons
Qu'un sang impur abreuve nos sillons!
Amour sacré de la patrie
Conduis, soutiens nos bras vengeurs!
Liberté, liberté chérie!
Combats avec tes défenseurs
Combats avec tes défenseurs
Sous nos drapeaux, que la victoire
Accoure à tes mâles accents
Que tes ennemis expirant
Voient ton triomphe et notre gloire!
Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!
Marchons, marchons
Qu'un sang impur abreuve nos sillons!

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Bridget trying to survive in Africa ou como NÃO conduzir pela esquerda




A ideia nunca foi eu conduzir em África. As estradas são uma confusão, o volante era à direita, a condução à esquerda, tal como o manípulo das mudanças, o meu namorado já não gosta da minha condução em Portugal, quanto mais com tudo ao contrário e eu, não fazia mesmo questão nenhuma de jogar à pista de obstáculos, qual jogo da playstation, mais difícil de sempre. T.I.A.

No entanto, os táxis tinham preços absurdos e nós somos de passear portanto, resolvemos, naquele domingo, logo à chegada do aeroporto, alugar o carro mais barato que lá tivessem e fazer-nos ao caminho.
 
So far so good. O meu namorado apesar de ser um bocado distraído, o que não convém nada, principalmente naquelas estradas, lá se foi desviando das crianças que se atravessavam, dos cães que tinham elegido a estrada como the place to be, dos carros estacionados na faixa de rodagem, das valas de 1 metro de profundidade nas bermas, nas quais me visualizei a cair vezes sem conta. Com o coração na boca lá fui, tentando manter o silêncio e rezando a todos os deuses locais para que chegássemos vivos ao destino. E ao fim de uma hora de curva e contra curva conseguimos. Julgava eu que o pior já tinha passado. Mas não.

Passado dois dias fomos a Port Louis sendo que a viagem de ida, comparada com a anterior, foi um passeio no parque. As estradas para Norte eram relativamente melhores passando por muito menos povoações e apenas quando chegámos à cidade é que nos infiltrámos no caos instalado, durante uns 20 minutos, até percebermos que tínhamos chegado ao nosso destino e arranjarmos um parque onde estacionar. O regresso foi um pouco pior... À noite, sem iluminação, foi bastante mais difícil reconhecer o caminho de volta sendo que só tínhamos um mapa turístico como companhia, onde a maior parte das estradas e localidades não tinham lugar. Tentámos orientarmo-nos pelas estrelas e pela geografia das montanhas até que com a ajuda de algum sentido de orientação (graças a Deus que andei 12 anos nos escuteiros) e de sorte, reconhecemos um monumento Hindu que já fazia parte do meu portefólio de fotografias da paisagem, desde essa manhã. Mais uma vez, o alívio da chegada era atroz.

Porém, tudo estava prestes a mudar. Quinta-feira decidimos ir conhecer as Tamarin Falls, uma série de sete cascatas localizadas no sudoeste da ilha, junto a Le Morne, paisagem considerada património mundial pela Unesco. Depois de atravessarmos a ilha de um ponta à outra chegámos ao cume da montanha de onde a água caía e encontramos um senhor que nos perguntou se queríamos ver as cascatas. Quando respondemos que sim aquele limitou-se a dizer follow me com uma pronúncia afrancesada e nós limitámo-nos a segui-lo.

Nisto, começámos a descer pela selva, assentado os pés entre rochas e raízes cobertas de lama e agarrando todas as lianas ou ramos que pudessem abrandar a nossa descida. Começava a ser picada por insectos e indagava que a aventura poderia acabar com o nosso suposto guia a raptar-nos para nos vender em partes. Até que chegámos à primeira cascata. Uma vista de cortar a respiração, especialmente para quem se debruçou naquele parapeito natural que me fazia tremer os joelhos só de imaginar. Ainda assim, mantendo-me uns passos atrás, a uma distância segura, respirei fundo aqueles segundos de felicidade. Depois, esta sensação repetiu-se quatro vezes mais nas cascatas seguintes até que me apercebi as horas que eram e decidimos fazer o caminho de volta.

De volta ao terceiro patamar, informámos o guia que gostávamos de tomar banho nas cascatas ao que este assentiu e disse que aquele era um bom lugar para fazê-lo. O meu namorado que queria mergulhar, perguntou ao guia se era seguro saltar para a água ao que ele respondeu que sim. Só depois de ver a cara com que o meu namorado emergiu da cascata é que concluímos com toda a certeza, que o guia não percebia uma palavra do que lhe tínhamos dito. Ele estava cheio de dores, algo se tinha passado..

Saiu da água e o pé, apesar de a água estar gelada, já estava o dobro do tamanho. Vestimo-nos a correr e ele começou a escalada que ainda era longa até ao topo da montanha onde tínhamos estacionado o carro, antes que a adrenalina se fosse e as dores se instalassem. Eu fiquei para trás à espera do guia, que resolveu entrar na água com todos os cuidados e banhar-se. Finalmente chegámos ao carro e ele, mesmo cheio de dores, insistiu em conduzir em direcção ao hospital mais próximo. Pequeno pormenor, não fazíamos ideia onde é que era, mas isso não é nada relevante.

Ao fim de uma hora e meia, a noite tinha caído, eram seis da tarde e chagávamos ao hospital público de Rose Belle, zona indiana, que nos tinha sido indicado como o melhor. Apesar das dores, o medo era ainda maior e o meu namorado tinha conduzido até ao hospital, sem sequer se queixar. Entrámos no hospital, eu a fazer papel de moleta e o meu namorado de sassi perere. Ele foi levado imediatamente de cadeira de rodas, eu fiquei a fazer o check in, e quando me juntei a ele na sala de triagem, já tínhamos cinco médicos à nossa volta a tentar fazer o diagnóstico. Éramos os únicos caucasianos no hospital, sendo que os únicos caucasianos na ilha eram turistas e normalmente não saiam do resort. Depois de termos contado como é que aquilo tinha acontecido, e de termos causado o momento de diversão da semana da equipa médica, resolveram, dado que iríamos fazer um voo de 12 horas em 2 dias, colocar gesso no pé abatatado, não fosse o diabo tecê-las. Durante esse processo perguntaram de onde vínhamos. O meu namorado, homem de pouca fé disse Europe, na certeza de que nas Maurícias nunca tinham ouvido falar de Portugal, mas eu, concretizei, We're from Portugal, e eis o nosso espanto quando os médicos, para além do típico Cristiano Ronaldo, disseram que tínhamos um óptimo Inglês para Portugueses. Para além disso tivemos direito a uma aula de história, as Maurícias foram descobertas por Portugueses. Porém, não tendo dado a importância devida àquele paraíso, deixamos os créditos e ocupação, aos holandeses.

Meia hora depois, já com a receita aviada, e sem pagar um único tostão, saímos felizes do hospital dada a simpatia e profissionalismo nada expectável num hospital de terceiro mundo. Mas o grande problema surgia agora. Nem pensar que o meu namorado ia conduzir com gesso e por isso, cabia-me a tarefa hercúlea de nos fazer chegar sãos e salvos ao hotel, a cerca de uma hora de distância.

Problema número dois: sou míope e não levei óculos para férias, não ia propriamente precisar deles, pensava eu. Problema número três: iluminação pública nas ruas e estradas não existe. Não ia ser nada fácil mas não havia outra opção. Liguei o carro, com a mão esquerda encaixei a primeira e com a mão direita tentei ligar o pisca, sendo que, em vez disso liguei o limpa pára-brisas. Espectáculo.

Lá seguimos então, pela esquerda, o meu namorado a ver-se dentro da berma com o carro capotado, e eu a visualizar a mesma imagem cada vez que ele gritava olha a berma!!. Tensa como nunca estive, as dores nas costas e no pescoço instalada, e eu não via nada à frente. Pior que conduzir na escuridão, só mesmo conduzir na escuridão a ser encandeada pelos carros que vinham em sentido contrário. Fuck!! Fazer rotundas ao contrário até foi divertido até perceber que as prioridades era todas ao contrário. Já tinha passado uma hora e ainda devíamos estar a meio do percurso. Saímos da estrada principal e virámos para o caminho que nos levaria ao hotel, caminho esse onde as aldeias de beira de estrada se repetiam, tal como todos os perigos que elas traziam: crianças, cães, pessoas, carros parados, ultrapassagens violentas (porque ninguém tinha paciência de conduzir atrás do nosso carro por mais de 1 minuto). As lombas nível 8 na escala de Isaltino também não facilitavam. Para além de tudo, quando me apercebia que vinha um carro na direcção contrária e que em breve deixaria de ver, parava o carro - antes isso do que me capotar o carro no meio do nada ,julgava eu. Mas cada vez que parava o carro, a certeza no meu namorado de que eu não conseguia ver um elefante à minha frente (o que era verdade!), crescia, na mesma medida que o seu pânico se instalava, tal como o meu.

Ao fim de duas horas, a cerca de dez minutos do hotel, passei por um carro que vinha da esquerda que me buzinou. Pois é, ele é que tinha prioridade, mas tudo bem. O meu namorado pediu encarecidamente que eu parasse o carro porque preferia ir ao pé-coxinho. Se não estivesse tão nervosa ter-me-ia rido mas não o fiz. Depois de convencê-lo que chamar um táxi no meio do nada não seria uma boa ideia, lá voltou para o carro e dez minutos depois chegámos ao hotel.

Esta experiência vai definitivamente entrar para as coisas mais "diferentes" que já fiz na vida: conduzir pela esquerda de olhos vendados! - check! Mas a moral da história que retirámos daqui é essencialmente esta: não acreditar nos guias que nos dizem que é seguro saltar para a água antes dos próprios o fazerem e nunca, mas nunca, ir para lado nenhum sem óculos!




 
 
 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Ainda sou do tempo em que se andava com dinheiro

 
Disclaimer: Não trabalho nem nunca trabalhei no Pingo Doce ou empresas do Grupo. Não sou filha nem parente da família Soares dos Santos ou Jerónimo Martins (infelizmente). E também não recebi nenhum cabaz nem vales de compras para vir para aqui dizer isto. Mas sou e sempre serei uma consumidora racional. Deste modo, a opinião abaixo ilustrada é completamente imparcial.
 
 
 
 
Será que sou a única da opinião que limitar o pagamento com cartões de débito/crédito a compras no valor superior a € 20 é uma óptima ideia?
 
Por certos momentos, e perante mais uma indignação popular contra a cadeia de supermercados preferida da maioria dos portugueses (sim porque, apesar de tudo, as lojas do Pingo Doce continuam cheias), pensei ser a única a adorar a ideia. Felizmente, quando cheguei a casa encontrei lá alguém que tinha exactamente a mesma opinião eu. Ufa, não estou maluca..
 
Em épocas de crise, todos temos de cortar nas gorduras, especialmente as empresas, por forma a manterem competitividade em relação à concorrência, a maior parte das vezes estrangeira (veja-se o Lidl ou as lojas chinesas, por exemplo).
 
O Pingo Doce, cadeia portuguesa, que vende produtos portugueses, produtos de marca branca de qualidade, com preços acessíveis, localização preferencial, que dá empregos com fartura, que exporta! vem mais uma vez à berlinda porque, tal como outras empresas, cortou nas gorduras.
 
Dado que relativamente aos produtores possivelmente já não haveria margem para cortes e sendo que têm plena consciência que os consumidores portugueses vivem já sobrecarregados, tiveram uma ideia de génio! Ou será que não?
 
O Pingo Doce quis cortar nas gorduras e não o fez através de despedimentos ou através do aumento exacerbado dos produtos. Tentou imputar o mínimo possível ao consumidor. Maldito seja!
 
No entanto, trazer € 20 na carteira parece ser um fardo muito pesado para o consumidor português. Eu ainda sou do tempo em que se andava com dinheiro na carteira. Aliás, mantenho-me fiel a esse princípio ainda hoje.
 
A maior parte dos financial advisers aconselham sempre, como medida para melhor poupar, andar com dinheiro na carteira e evitar a utilização dos cartões que nos impedem de ver o dinheiro a voar da nossa conta para fora. Especialmente, nas compras de supermercado. Tenho seguido essa medida de há uns tempos para cá e tem dado resultado, mesmo com as compras do mês. Por essa razão e por outras entrei em choque quando vi surgir uma onda de revolta contra essa medida.
 
Mas qual será o problema de andar com € 20 na carteira? Será o nojo de mexer em dinheiro? Preguiça de ir ao multibanco? É que ainda por cima, a maioria se não todos os Pingo Doce têm ATM dentro das lojas. Alguém se importa de me explicar?
 
E depois vêm outra vez com boicotes e promessas/ameaças: "agora é que não me vêem mais nessas superfícies, a partir de hoje só comércio tradicional". Nesses casos, desejo boa sorte porque a maior parte do comércio tradicional ou não tem multibanco ou também tem limites de valor à utilização do mesmo.
 
Resumindo, será que o povo português não percebe que o acto de andar com dinheiro na carteira podia poupar dinheiro aos próprios e ao Pingo Doce (que o poderia utilizá-lo, por exemplo, para manter os preços, investir na nossa economia, produtores, etc?) Serei a única a ver isto? Espero sinceramente que não.
 
O único problema que eu vejo nesta medida é que já não se pode ir ao Pingo Doce com os últimos € 9 do mês, aqueles que estupidamente ficaram na conta bancária e não se podem levantar. Mas para isso também há solução! Para quem tem este problema e, principalmente, para aqueles para os quais esses € 9 podem ser a diferença entre alimentar os filhos ou não, dois conselhos: levantem sempre o vosso dinheiro antes de chegar a esses montantes e não utilizem cartões.
 
Se mesmo assim, repararem tarde de mais e acabarem o mês com os ditos € 9 presos na conta bancária para gastar, podem sempre ir ao bom e velho Mc Donalds!
 
 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Itsy Bitsy Spider or another Bridget Moment




Deixar a capota do carro aberta durante uma tarde inteira quando se vai ao campo não é uma boa ideia. Sábado passado, deixei a capota aberta, mas fechei-a antes de anoitecer por causa da humidade. No entanto, algo bem pior aconteceu durante a tarde...

Hoje de manhã fui à bomba de gasolina abastecer e no momento em que estava quase a parar o carro no sítio certo (isto é, perto o suficiente da mangueira - já me aconteceu por duas vezes não conseguir chegar com aquela ao depósito), aparece calmamente, a passear ao longo do volante uma ARANHA!!! Não gosto particularmente de aranhas, se preferirem eufemismos.

O pior de tudo é que não era um daqueles aranhiços escanzelados, que dão sorte ou trazem dinheiro ou lá o que é. Nada disso. Era uma aranha daquelas gordas, aquelas com pelos e listas castanhas e pretas, do tamanho da vossa unha do polegar. Sim, desse tamanho! Pode não parecer muito assustador ver um exemplar daqueles a vários metros de distância mas a 4,5 com da nossa mão... bem, não é a melhor sensação do mundo.

E assim, saí eu disparada do carro, a tentar manter a compostura, que estou farta de fazer figuras tristes em bombas de gasolina. Peguei numa folha de papel que tinha na carteira, que retirei calmamente do carro pela porta do passageiro, e tentei que aquilo subisse para a folha e saísse do meu carro de uma vez por todas. Como é óbvio, nada disso aconteceu. É claro que ela caiu da folha de papel para lugar incerto. Pior é que o referido lugar incerto ainda era dentro do carro. Respirei fundo e pensei dar-lhe dois ou três minutos para aparecer. Fui fazer o pré-pagamento e abasteci.

Nisto, tinha um senhor dentro de um carro atrás do meu que coitado, já devia estar farto de esperar. Ainda pensei ir explicar ao senhor que tinha uma aranha dentro do carro, sabe-se lá onde, e que ainda ia demorar e por isso devia ir para outra fila. Hesitei.. Olhei mais uma vez.. Não a via em lado nenhum. Então, num rasgo de coragem, respirei fundo, entrei e liguei o carro, e entre arrepios e comichões andei 10 metros até ao sítio do ar / água e voltei a sair disparada, a sacudir-me toda não fosse ela ter apanhado boleia na minha saia ou coisa do género.

Eu tinha duas hipóteses: ou encontrava a merda da aranha ou deixava ali o carro e ia de táxi.
Então, do lado de fora do carro, mantendo uma distância de segurança, retomei as buscas. Fui descobrir a sacaninha entre o meu banco e a porta mas não tinha como a tirar, e já tinha visto que a folha de papel não dava resultado. Acendi um cigarro e olhei em volta. Encontrei umas folhas de palmeira seca. Peguei numa e empurrei-a daquele sitio debaixo do banco e ela subiu para a folha. Mantive a calma suficiente para não largar a folha e desatar a correr. Deixei-a a um metro e meio do carro, após ter desfeito a teia grossíssima que a estúpida da aranha tinha deixado ligada ao carro. Entrei no carro, e arranquei entre comichões e arrepios para mais um dia de trabalho.E fui a pensar na minha sorte e a imaginar o que teria acontecido se a sacana me tivesse aparecido enquanto conduzia na auto-estrada, ou coisa assim.

Há duas coisas verdadeiramente assustadoras nesta história toda:
1. Andei desde domingo com aquela coisa nojenta ao pé de mim;
2. Podem ter entrado muito mais aranhas enquanto deixei a capota aberta!..itsy bitsy spider...

Wish me luck!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Puppy Love

[Não queríamos dar nomes mas por forma a distingui-los lá os fomos chamando, da esquerda para a direita, lourinha (ou bonita para o avô), ursinho (por ser o mais peludo), principe e princesa.]


Amanhã despeço-me dos últimos três cachorros dos nove concebidos pelos nossos cão e cadela.

Por um lado, vou voltar a dormir, vou deixar de correr de um lado para o outro de manhã à noite, vou deixar de ter tantos arranhões e nódoas negras e vou voltar a ter a casa limpa e bem cheirosa. É nisso que me tenho vindo a concentrar em estágio para o grande evento libertador que me irá partir o coração.

Estes cachorros que ajudei nascer farão parte da minha família e da minha história para sempre. São os meus netos caninos, cada um diferente do outro e todos com as melhores características que podiam ter ido buscar aos pais. Enquanto dei um de cada vez foi doendo devagar porque tinha os restantes a ocupar-me os minutos e os cansaços. Agora, vou ter finalmente de enfrentar o vazio que tentarei explicar da melhor forma que consiga à minha cadela.

Resta-me, apenas, a esperança de ganhar o Euromilhões hoje à noite, caso em que ficaremos com todos eles. Façam figas!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sexta-feira 13 de Abril de 2012

A partir de hoje, sexta-feira 13 será vista, não mais como dia de azar, mas como dia de imensa alegria. A minha prima caçula nasceu e o mundo ficou um bocadinho melhor!! Por essa razão, mesmo sem muito tempo disponível, quis perpetuar este dia no meu diário de bordo e receber mais esta parte de mim que chegou hoje, do oriente. Quem sabe um dia ela me leia nas entrelinhas deste lugar...

Agora dedico a ti, aos papás, aos avós, às bisavós, tias e primos uma música em forma de canção de embalar que parece que foi feita só para ti.



Bem-vinda ao mundo pequenina!!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Amor cão ou quem quer um dos OITO cachorros mais lindos

Ontem fui com a Concha fazer a ecografia e como nunca tinha passado pela experiência de uma gravidez, foi mesmo muito emocionante. Para além de estarmos três pessoas a segurar na Concha para ela não se mexer, entre baba e empurrões, ouvi os batimentos cardíacos dos pequenos que aí vêm. E o Zé não se ficou por menos. Oito cachorro, no mínimo.

A toda a blogosfera em geral, e aos dog lovers em especial: lembram-se quando vos descrevi a minha tentativa falhada de interrupção de cópula canina, lá em casa. Pois é.. Não tínhamos muita esperança de nos safarmos desta sem uma ninhada, mas OITO?!?! A sério? Conclusão: A nossa matilha de 4 vai passar a 12 muito em breve.
Infelizmente, não vivemos numa quinta e por isso não iremos poder ficar com nenhum deles, o que me vai partir o coração. Mas não havendo outra opção, apelo-vos hoje a adoptarem um dos meus netinhos que vêm a caminho.

O pai é o Zé e é um Leão da Rodésia, do mais principesco e meiguinho que pode haver. A mãe é a Concha, filha de uma Dogue de Bordéus (Sushi) e de um Bull Mastiff (Benji) sendo que a Concha puxou ao pai. Parece uma ursinha, é completamente desengonçada e não dá para resistir às pregas que tem no focinho. São os melhores amigos que se podem ter. São protectores, inteligentes e adoram crianças e pessoas em geral.

Depois virei aqui com fotografias dos piquenos e descrições mirabolante de um parto canino. Já tirei férias para me dedicar à função de parteira e o hospital de campanha está quase pronto. Wish me luck!












sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Voto de vencido ou We are Nebraska




No dia em que foi a votação e não passou a alteração da lei da adopção por forma a permitir a adopção por casais do mesmo sexo deixo-vos aqui o meu voto de vencido. Se tiverem oportunidade vejam este episódio do American Dad (Season 3 Episode 7) que é uma delícia.

Comecei a manhã com boas notícias: a liberdade de voto estabelecida dentro das bancadas do PS e do PSD. Numa questão como esta, que não é ideológica nem política, mas pessoal, é positivo que cada um o possa votar em consciência. A consciência dos deputados eleitos pela Assembleia da República. por nós eleitos (ou pelo menos por mim que costumo ir votar) decidiu que Portugal ainda não está preparado para essa solução. Tenho pena que ainda sejamos o Nebraska mas a democracia tem destas coisas e sei que um dia, as consciências irão ser outras.

Boa notícia da tarde: houve um deputado do CDS que votou a favor. Quero conhecê-lo e dar-lhe os meus parabéns por saber distinguir as coisas e ter coragem de ter uma opinião diferente dentro do grupo alegadamente mais conservador.

É certo que a crise financeira não é a melhor altura para levar a cabo estas alterações legislativas. Mas estamos em crise há anos e alguma vez tinha de ser o dia. Perder-se-ia menos tempo se a proposta fosse aprovada à primeira, mas pronto.

Ainda vivemos numa sociedade em que a homossexualidade é mal vista, fora do mundo do espectáculo pelo menos. Ninguém o assume, porque não é politicamente correcto, e ninguém fala disso, para não ter de tomar partido, para não ser conotado com uma determinada liberalidade de costumes ou intolerância antiquada, conforme o caso. Se virmos os blogs de hoje, poucos falam sobre  isto. Todos querem ter uma moral maleável conforme o interlocutor. É triste. Mas é assim.

O facto de existirem muitos homossexuais dentro do armário com medo das repercussões sociais e profissionais é prova que a discriminação ainda existe. Existe e não é pouca, infelizmente. Mas, por alguma razão e depois de várias tentativas, o casamento entre casais do mesmo sexo foi consagrado na nossa legislação e tenho esperança que um dia aconteça o mesmo com a adopção. Porque a orientação sexual de uma pessoa não define a sua capacidade de ser um bom pai ou boa mãe. E não ser o melhor para a criança porque vai ser gozada na escola é partir de um pressuposto inadmissível, que é o de não educarmos os nossos filhos para respeitarem os que os rodeiam ou pelo menos, para respeitarem a lei. É tratar a intolerância como um facto consumado.

Mas as crianças são cruéis.. Pois são, porque normalmente aprendem cedo de mais, com os adultos, a rejeitar o que é diferente. Mas todos os gordos, feios, escanzelados, caixa-de-óculos, portadores de aparelhos, sopinhas-de-massa, burros, portadores de piolhos, filhos de pais divorciados, órfãos, betinhos, dreads, riquinhos, Lyonces Victórias, etc, todos são / foram gozados na escola por alguma razão ou sem razão nenhuma se pensarmos melhor. Qual de vocês não foi? E não sobreviveram? Acham que o facto de as crianças serem cruéis seria dissuasor de deixarem de levar os vossos filhos ao oftalmologista para pôr uns óculos? Penso que não. E por que razão será a crueldade das crianças uma boa razão para impedir que um casal do mesmo sexo possa adoptar ou recorrer à inseminação? Porque não é do melhor interesse da criança ser gozada na escola? Não percebo.

Ou será que acham que a homossexualidade se pega.. Deve ser isso.

Sei que um dia vamos evoluir, tal como evoluímos em relação à escravidão, à segregação, aos direitos das mulheres, às mães solteiras, entre outros. Só tenho pena que não tenha sido hoje.

Relativamente à lei da adopção, choca-me que na lei vigente haja a possibilidade de "devolução" da criança adoptada. Alguém me consegue explicar em que terra é que a referida devolução é no melhor interesse de uma criança?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Lisboa saiu à rua ou a minha incursão pelos 80's

Ontem fomos "namorar" para o concerto de Simple Minds, com direito a um incursão pelos 80's à séria. Não tinha as minhas expectativas super elevadas, na medida em que só conhecia parte da discografia, e só sabia de cor dois ou três refrões. Saímos de casa, já atrasados (o costume) mas sem preocupações já que íamos de mota. No entanto, e surpreendentemente, o trânsito estava um inferno e nem de mota nos safámos, tendo demorado cerca de 20 minutos a chegar ao concerto e que moramos no centro de Lisboa.

O trânsito estava como costuma estar no dia 23 de Dezembro à hora de ponta, quando os carros apressados se amontoam numa marcha lenta a tentar ultimar os derradeiros preparativos. Havia pessoas nas ruas, casais, velhos e novos, grupos de amigos, famílias... Lisboa saiu à rua e nem o frio a impediu. Por isso, apesar do trânsito, enchi-me de uma alegria típica de romântica incurável ao aperceber-me o que o amor leva as pessoas a fazer. Elas só precisam de uma boa desculpa, do género: hoje é dia dos namorados! para quererem sair de casa, jantarem com os amigos, ou simplesmente passearem pelo parque. Os restaurantes estavam cheios e ouvia-se aquele burburinho das conversas e dos risos ao ritmo de uma música que tocava ao longe. Eram os Simple Minds. O concerto já tinha começado.

Apressadamente, entrámos no Coliseu, na sala cheia do Coliseu, como se entrássemos numa espécie de tele-transporte temporal directamente para os anos 80, sem passar pela casa partida. Não eram os penteados, não vi nem uma poupa. Nem os enchumaços, ou aquelas baggy pants, com a cintura por baixo dos ombros, que não ficavam bem a ninguém. A média de idades devia rondar os 40 anos mas em idade mental estavam todos de regresso à adolescência. Dançavam e cantavam exactamente como se vê nos filmes (sim porque nos 80's era nova de mais para ver pessoas dançar). E todos cantavam e aplaudiam enquanto bebiam uma cerveja e passeavam na nostalgia com o sorriso embasbacado de quem se lembra o que era dançar nos 80's.

O Jim Kerr estava no mesmo estado. Apesar do concerto ter tido um intervalo a meio que a idade já não perdoa, o escocês extaseado ainda nos presenteou com um encore. Foi fenomenal. Com os seus "tipical moves" a rodar o microfone sobre a cabeça, a fazer olhinhos e a mandar beijinhos pelo ar às "meninas", moveu as ancas como nenhum homem movia desde 1989. E eu tentei acompanhar e abanei a cabeça e as ancas até ao limiar da dor, ao som de I promised you a miracle, e aplaudi com os braços no ar e assobiei, promises promises. Simplesmente inesquecível. Jim Kerr ganhou mais uma fã.





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Come on baby light my fire (ou a fadinha dos isqueiros)






Disclaimer: Este post é só para fumadores (e alguns ex-fumadores que não sejam fanáticos). Os fanáticos da saúde, do politicamente correcto, médicos e afins que o leiam, por favor abstenham-se de fazer comentários. Eu sei que fumar mata, faz mal à pele, causa infertilidade, prejudica o feto, emagrece e relaxa. Não precisam de dizer outra vez. Enjoy!

Quem fuma (e quando eu digo quem fuma não me refiro a fumadores de fim-de-semana, fumadores sociais, fumadores de copos, fumadores de cigarros com nicotina inexistente, fumadores de cigarros fininhos que sabem a vento, entre outros que tais; aceito os fumadores de cigarros electrónicos, simplesmente, porque acho amoroso e porque sei que são verdadeiros fumadores em sofrimento) sabe ao que me refiro.

Há semanas assim..
Passo semanas em que compro isqueiros numa base quase diária, e chego a casa ao fim do dia e já não sei deles. Por vezes, de tão farta que estou de comprar isqueiros, chego a levar fósforos ou mesmo o isqueiro de cozinha. Pedir lume seria uma opção se os meus companheiros de fumo levassem isqueiro. Na maior parte das vezes, contam com o meu e quando eu não levo é o desespero. Uma vez disseram-me que a causa dos desaparecimentos cíclicos era uma personagem mítica chamada fadinha dos isqueiros, que por vezes escondia os referidos, para gozar com a nossa cara.

Mas hoje tudo mudou. Consegui contar cinco isqueiros na minha carteira, só hoje de manhã. Parece que a fadinha dos isqueiros se cansou por uns tempos de gozar com a minha cara e começou a devolvê-los, foi de férias ou foi gozar com outro. Cinco isqueiros.. Um estava no carro, outros dois, um em cada bolso de um casaco que não vestia há uns tempos, outro numa gaveta no escritório, e outro roubei lá em casa, de certeza.

Tenho-vos a dizer que nas últimas semanas da minha vida a fadinha esteve muito activa. Do género de estar a tentar acender um cigarro no carro (um dos meus hábitos favoritos) e o único isqueiro que tinha caiu-me da mão para aquele sítio, qual buraco negro, entre o banco do condutor e o travão de mão. É claro que tinha o isqueiro do carro avariado e fui sem fumar até casa. Cheguei a ponderar pedir lume ao carro do lado, nos semáforos, mas contive a minha veia doente.

Longe vão os tempos onde bastava uma senhora remexer na sua carteira que vinham dez cavalheiros de isqueiro em punho. Uma senhora nunca precisava sequer de pedir lume, este era-lhe oferecido de uma forma encantadora e paternalista. É verdade que pedir lume é sempre uma óptima forma de iniciar uma conversa com um desconhecido. Acredito que o acto de fumar, principalmente, nos últimos tempos, em que somos obrigados a encarneirar à porta dos edifícios e restaurantes para o fazer, deve ter sido motor, ou pelo menos ignição, de bastantes relações duradouras.

Um homem a fumar pode ser sexy, mas uma mulher a fumar, é ainda mais. Há qualquer coisa de rebeldia e de estatuto que se juntam num cigarro. Obviamente, que não não comecei a fumar para o estilo, sem travar, nas festas de liceu. Comprei um maço e comecei a fumar às escondidas, dos meus amigos, dentro do próprio liceu. E travava e sabia-me tão bem.. Ainda hoje sabe. Cada cigarro que fumo sabe-me quase tão bem como o primeiro, o melhor de todos, aquele que nos chega a arranhar a alma. As minhas amigas dizem-me que lhes dou vontade de fumar, porque fumo sempre com prazer. É um facto. Um para acordar, dois a seguir a cada café, a conduzir, a seguir ao almoço, ao jantar, 10 em cada conversa, dois a seguir a cada momento especial. Tenho sempre a necessidade de aliar os prazeres da vida com um cigarro. Para ficarem ainda melhores. E os momentos difíceis também. E fumar enquanto ando debaixo de chuva miudinha, tão bom (mesmo sabendo que uma senhora não fuma a andar, ou por isso mesmo).

A verdade é só uma: o sonho de um verdadeiro fumador não é conseguir deixar de fumar, é que fumar não mate! E se não nos levar à falência, entretanto, ainda melhor!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Momento Bridget ou tentativa falhada de interrupção de cópula canina


(Fotografia de há um ano atrás. Que o meu Zé não é pedófilo)

Era mais uma sexta feira, daquelas sextas feiras com tanto trabalho que desejamos que fosse quinta. Tinha acordado mais cedo para chegar mais cedo ao escritório que no dia anterior tinha saído de lá às onze e não estava com vontade de repetir. Assim, dei água aos cães, dei-lhes comida, tomei banho rapidamente, vesti-me, sequei o cabelo e até me maquilhei. Eram nove da manhã e estava pronta para sair de casa.

De repente, ouvi o rugido da Concha, seguido de um ganir assustado, que me fez olhar para trás. Era o Zé a tentar (julgava eu) fazer meninos, como tem tentado, sem sucesso, desde há muito tempo. Chamei-o, para ver se ele parava com aquilo, mas desta vez ele não parou. Então, dirige-me a ele para o "educar", mas ele continuou. Decidi passar à acção. Enquanto puxava o Zé, por um lado, tentava afastar a Concha com um dos meus pés, por outro. Mas sem resultado. Comecei aos berros na esperança que os meus guinchos histéricos surtissem efeito. Mas nada. O único efeito foi o namorado, que saiu da casa de banho para saber quem estava a matar quem.

Quando chegou ao pé de mim a indagar o porquê da histeria expliquei-lhe que não conseguia separá-los e pedi-lhe ajuda. Ao que ele respondeu qualquer coisa como "mas ele já conseguiu?" ao que eu respondi sem certeza, "penso que sim". "Então não há nada a fazer" retorquiu ele, "prepara-te para ter cachorrinhos". "Como assim não há nada a fazer?" perguntei eu incrédula.

E aí começou a aula de biologia canina. Diz que o órgão sexual dos cães incha a um ponto, que faz com que fiquem acoplados durante bastante tempo. E não há nada a fazer senão esperar que passe para os desacoplar. Eu que vejo National Geographic repetidamente, já conhecia esta prática, utilizada em várias espécies, mas nunca me passou pela cabeça que os canídeos fizessem parte desse grupo. Esta decorrência biológica do órgão masculino canídeo permite que, (i) se tenha a certeza (ou quase a certeza - ainda tenho alguma réstia de esperança) que a fêmea é fertilizada; e (ii) se tenha a certeza que os pequenos são dele. Isto é, enquanto ele está lá preso, impede outro macho de tentar fecundar a fêmea. 

Existe uma forma de provocar o desacoplamento: água. Tipo um balde de água ou mangueirada permitiria que o dito órgão desinchasse e que a minha querida cadela se conseguisse soltar. Porém, como estávamos no meio da sala, achei que não era a melhor das ideias.

Por isso a única solução era ficar à espera, impávida e serena, e presenciar a violação da minha ursinha, prepertada pelo meu querido cão. E enquanto ela olhava para mim com um ar de quem diz "por favor, tira-me daqui" e tentava fugir, o Zé seguia-a e continuava tudo na mesma. Na minha impotência fui tirar um café. E a cadela continuava a queixar-se de dores, já que já estavam virados rabo-com-rabo. O único acto de amor ali era o facto de as caudas estarem entrelaçadas. O resto era apenas dor e aflição. E nisto passou-se cerca de meia hora, durante a qual fiz o que pude para acalmar a malta. Cada vez que me movia, a Concha vinha atrás de mim, com o Zé a reboque. Portanto, ali fiquei, à espera que passasse.

Eis que não quando, a empregada entra em casa, e os cães desatam em histeria, como de costume, para a irem cumprimentar. Pareciam siameses unidos pelo rabo a tentarem ambos irem pelo mesmo lado. Nisto a Concha vira-se para o mesmo lado que o Zé, o que provocou um uivo de dor ao cão, que a atirou ao chão para que a dor parasse, mas a dor só piorou, à medida em que se entrelaçavam ainda mais. Até que, num esticão mais violento, desacoplaram-se finalmente.

Pormenores sórdidos à parte, separei os cães, expliquei o sucedido à empregada em pânico e saí de casa às dez para as dez a pensar o que irei fazer à ninhada que possivelmente nascerá em 60 dias. Conclusão, vou ser avó em dois meses, isto tudo porque me distraí por dois segundos. Há manhãs assim.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Momento Bridget ou a minha vida dava um filme de Woody Allen




"Death doesn't really worry me that much, I'm not frightened about it... I just don't want to be there when it happens"

A semana passada foi um tanto ao quanto banal, com imenso trabalho, nada a assinalar. No entanto, a minha sexta-feira foi tirada de um filme de Woody Allen. Saí da cama ainda a dormir e fui alimentar os "meus" cães. Para mim, esse é um momento importante do dia dado que é a única altura em que eles dependem de mim para alguma coisa, porque nas outras alturas eu bem posso dizer senta cem vezes, e puxar a trela e dizer junto, que eles não estão nem aí. Dizem que é porque não sou o macho alfa da família. No entanto, nada que eu faça, desde falar com voz grossa a largar a depilação adianta. Até acho que os cães se riem de mim. Mas não era sobre o facto de não impor respeito aos meus cães que vinha aqui falar, apesar de eles serem o motor de muitos momentos Bridget assinaláveis.

Onde é que eu ía.. ah, fui a dormir dar de comida aos cães. Ora, a comida está guardada na dispensa, no fundo da dispensa, onde o tecto é significativamente mais baixo. Porém, na sexta-feira, bati com a cabeça na parte da parede que desce, com toda a força, como se a parede nunca tivesse estado lá. Pura e simplesmente, não me baixei o suficiente. Normalmente, isto acontece-me quando estou de saltos, na medida em que a variação drástica de alturas não me permite aferir ao certo a distância das coisas ou quanto é que me tenho de baixar. Ser uma toupeira e precisar de mudar de óculos também não ajuda, eu sei. Mas desta vez, não tive desculpa. Estava mesmo só a dormir.

Ao bater com a cabeça, soltei um grito que assustou os meus cães que deram três passos para trás com medo de mim. Parece que só consigo ser o alfa quando grito de dor. A cabeça ganhou automaticamente um alto gigantesco. E pensei: ainda bem que não foi no occipital!

Resumindo, fiquei o dia inteiro cheia de dores, a avisar toda a gente o que me tinha acontecido, para poderem avisar o INEM do que se tinha passado, caso caísse inanimada no chão. E de hora a hora, nasciam-me sintomas, que apesar de saber serem psicosomáticos, não havia maneira de passarem. Desde náuseas a tonturas, tive tudo.

Quando finalmente o galo já cantava baixinho, ao ponto de já não ouvir mais do que um pequeno murmurar, cheguei a casa ao fim do dia, cheia de fome e comecei a fazer o jantar. Decidi fazer o meu risotto de limão. Comecei por raspar a casca do limão, espremê-lo, e depois de vários processos a explicar num blog à parte, provei o risotto, para poder acertar os temperos. O risotto estava amargo!! Não sei se do tipo de limão ou do facto de ter juntado limão a mais, estava amargo ao ponto do quase insuportável. Resolvi juntar açúcar e mais sal e pimenta. E umas ervas. Continuava amargo. Voltei a juntar açúcar, uma e outra vez. Transformei o risotto em qualquer coisa indescritível. Não comemos o risotto de tão mau que estava e eu estou proibida de fazer risotto de limão até para o ano. O meu querido risotto de limão, acompanhamento perfeito de vieiras saltadas em cama de legumes ou mesmo de uns simples rissóis de camarão. Tive vontade de chorar.

E assim, apesar de ser uma semana sem nada de especial a assinalar, a minha banal sexta-feira teve todos os pormenores de uma Bridget, num filme de Woody Allen, à excepção de não se passar em Nove Iorque. Teria tido muito mais graça. Há dias assim...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Balanço 2011



"Este ano vou ser mais, muito mais e bastante melhor. Vou ser tudo o que quero ser, já que não posso fazer tudo o que quero a todas as horas. E irei mais longe do que alguma vez fui e voarei mais alto.. Este ano vou viajar mais e trazer comigo mais pedaços deste mundo ainda estrangeiro de mim, mas não por muito tempo. Vou fazê-lo meu. E vou partilhar mais, prometo. E se falhar podem cobrar. Este ano vou trabalhar mais e melhor e ultrapassar os obstáculos que ainda me restam para ser plena na profissão que me escolheu. E vou ler mais, muito mais, porque o tempo foge de nós e a memória também e saber é preciso. Este ano vou cuidar mais de mim... Vou beber mais água e comer melhor e exercitar o corpo que é casa desta alma que quer viver muito e bem. Vou comer mais fruta e vegetais e fugir das batatas fritas e da Coca-Cola como se fugisse da lava de um vulcão. Este ano vou dançar e cantar mais e mais alto... Este ano vou amar-te ainda mais (como se fosse possível) e melhor (isso sei que é) e vou continuar a cuidar de ti e dos nossos, melhor do que no ano anterior. E vou ser mais arrumada e vou lavar mais vezes o carro. Este ano vou passear os cães logo de manhã cedo, antes mesmo de acordares com esse teu sorriso quente de almofada em resposta ao meu “bom-dia querido, está na hora”.Este ano vou estar mais com os amigos, tantos e tão bons e que hoje pouco vejo mas dos quais sinto tanta, mas tanta falta (se não fosse o Facebook já não os reconhecia – Salvé o Facebook!) Este ano vou poupar mais: dinheiro, energia, água, tristezas. E vou deixar de me preocupar com o que não interessa e de remoer obsessivamente nas subtilezas que capto nos sorrisos disfarçados dos outros ou nas frases encobertas de simpatia. Este ano vou dormir mais (sim querido, ainda mais) e melhor. Este ano vou ser mais feliz! E vou repetir este manifesto como mantra da minha alegria não me vá eu desviar do caminho certo."

Foi isto que eu disse o ano passado e eis o que consegui cumprir (quase tudo):

  • Viajei. Não tanto como queria mas para o ano será melhor;
  • Ultrapassei obstáculos: exame de agregação Check;
  • Dancei e cantei mais alto;
  • Cuidei de mim;
  • Amei-te melhor;
  • Fui mais arrumada e lavei o carro mais vezes (e no entanto o carro continua sem grelha);
  • Passeio os cães todas as manhãs;
  • Estive com os amigos (pouco, ainda, mesmo assim);
  • Poupei tristezas e substitui as lâmpadas lá de casa por LED para poupar energia;
  • Este ano fui mais feliz!

O que ficou por cumprir (e passa para a lista de resoluções de 2012, a qual protesto juntar):
  • Aquela viagem, só nós dois;
  • Beber água e deixar a Coca-cola (apesar das batatas fritas terem sofrido uma redução substancial);
  • Ler mais livros; e
  • Poupar dinheiro (tenho cá para mim que este no é que vou conseguir).
Um dos exercícios que gosto de fazer quando estou cansada ou acho que tudo corre mal é contabilizar, através de listas, as coisas boas e os momentos inesquecíveis que tenho passado, para não me esquecer que a vida me sorri. E fazendo uma incursão pela máquina fotográfica, este ano foi um ano notável e tenho muitos momentos para mais tarde recordar:
  • Passei fins-de-semana deliciosos;
  • Fui a festivais e concertos (Donavon - Ericeira Summer Fest, Jamie Cullum, Diego el Cigala, Cold Play - Optimus Alive, Gipsy Kings, Caetano Veloso e Maria Gadu, Bon Jovi, entre outros);
  • Fui a dois casamentos e dois baptizados;
  • A Maria nasceu e a Luísa vem a caminho;
  • Cantei no Rock in Law;
  • Andei a cavalo (montei) pela primeira vez;
  • Andei de barco;
  • Fiz milhares de compotas e biscoitos;
  • Tornei-me sócia do Sporting e comprei lugar de época;
  • Fui a Amesterdão mais uma vez;
  • Tive cerca de 6000 visualizações do blog só este ano (o que pode parecer rídiculo para que tenha este número de visualizações por dia, mas para mim foi um passo importante abrir o blog ao mundo);
  • Fui madrinha e fui à festa de Natal na Casa dos Rapazes; e
  • Comecei a andar de mota (à pendura - mas já foi um grande passo).
Em suma, foi um bom ano. Mas ainda há muito para fazer. À medida que antigos obstáculos são ultrapassados novos desafios aparecem no caminho. E eu estou preparada para percorrê-lo. Bom ano, malta!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A alegria de uma criança





Já vos disse que gosto muito do Natal, right? Especialmente porque esta época tem o condão de trazer ainda mais ao de cima a criança que há em mim.. Ou talvez, porque nesta época não se note tanto os meus surtos de alegria, daquelas que só as crianças sabem ter.


É uma das minhas características mais importantes: Sou criança e gosto! Haverá coisa melhor do que:
  • patinar no gelo e tentar não cair;
  • ficar embevecida com as luzes e cores;
  • sorrir com os olhos;
  • fazer "V's" de vitória (ou de peace and love) para as fotografias;
  • fazer casas de gengibre e montar a árvore de Natal;
  • cantar músicas de Natal em uníssono;
  • manter a esperança num mundo melhor;
  • partilhar a alegria de passar pelo security check do aeroporto e não apitar com o segurança;
  • comer gomas e algodão doce;
  • andar de carrossel;
  • a alegria sincera de partilhar o que temos?

Não há, digo-vos, honestamente. Passamos a infância a querer ser crescidos para poder fazer imensas coisas que nos esquecemos de fazer quando, finalmente, chegamos a adultos e já não precisamos de autorização. Temos de ser adultos tantas horas por dia que, com o que nos sobra, temos de aproveitar e voltar à simplicidade das coisas boas.

Isto tudo para justificar a minha compra do Domingo passado. Fui à Decathlon e comprei um arco de Hula hoop, que sempre quis ter. Em miúda, lembro-me de ficar na escola, horas a fio, com o arco a rodar à minha volta sem cair. E nesta memória peguei no arco ali mesmo e tentei. Inexplicavelmente, o arco rodopiou brevemente (cerca de duas vezes e meia já a contar com a volta que deu nas pernas) e caiu. Não pode ser.. As crianças não têm ancas, agora devia ser mais fácil. E tentei mais uma vez.. E voltou a cair. Pronto, a decisão fora tomada: Tinha de levar o arco para casa. Fui treinando no caminho até à caixa e quando cheguei já conseguia aguentar três voltas e meia. A senhora da caixa sorriu e disse:

É tão bom ter a capacidade de se ser criança! Pois é, respondi com um sorriso, iniciando mais uma tentativa falhada. Em suma, acabei de encontrar a minha primeira resolução para 2012: ficar croma a hula hoop! Garanto-vos que entre tentativa e erro, aquele arco faz melhor do que ir ao ginásio.

E com a alegria de uma criança, saí com o arco na mão, e fui brincar às casinhas com o meu namorado. =)


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O nosso Fado..


E por fim, o nosso grito de angústia, saudade e alegria foi consagrado património imaterial da humanidade. O reconhecimento desta contribuição de Portugal para o mundo, imortalizar-nos-á, mesmo depois de nós. Independentemente do nosso destino, viveremos para sempre, no canto da sua voz, no brilho do seu olhar. O nosso Fado é eterno.

Ser benfiquista é ter na alma a chama imensa...






Sim... Sou contra o vandalismo, mesmo quando instigado pelas "jaulas" desta vida.


Mas também sou contra o sensacionalismo e vitimização. Deixaram a chama crescer durante muito tempo, só para justificarem a jaula e desviarem a atenção do facto de não terem jogado bem.


(Sim, sou tirana, este post não está aberto a comentários. Já discuti sb isto o que tinha a discutir. Deixo-vos só com as imagens do antes e do depois).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Das dores de Alma

Disclaimer: Não estou a insinuar que os homens não tenham dores de alma, mas este post é dirigido especificamente às mulheres da minha vida, minhas amigas e outras que tais, que sofrem, neste momento por amor. Minhas queridas, venho aqui hoje tentar animar-vos, por um lado, e dar-vos um bocadinho mais na cabeça, por outro.

Sobre as dores de Alma, tão profundas como as que se instalaram há uns tempos no vosso peito, há muito para dizer. Dizer-vos: I've been there, I've done that, não vos ajuda em nada, mas credencia-me para o que vou dizer a seguir.

Este tipo de dor é a pior de todas as dores que alguém pode ter. Não tem uma cura óbvia ou milagrosa e não vai lá com comprimidos. A única coisa que ajuda a amenizar essa dor é o tempo, que escolhe, nessas alturas, correr estupidamente devagar.

Mas antes de a dor ser passível de desvanecer com o tempo tem de haver a aceitação da situação, a desistência, o ignorar a sua existência, dependendo de cada caso. E até lá, o peso que há no peito é cada vez maior e apertado, e a garganta fecha-se por dentro, expulsando o ar  apenas através de convulsões de choro tidas entre rápidos percursos de carro ou na almofada escondida nos lençóis.

Até que a dor seja passível de desvanecer com o tempo, há que obrigar o corpo a sair da cama, todos os dias, de volta para um mundo que já não faz sentido. Por enquanto. Porque vai voltar a fazer.

Esta dor invisível que quase mata é provocada por desapontamento, incredulidade, atordoamento e perda. E a perda é a que provoca maiores dores. Ao princípio, como qualquer amputado, não acreditamos na perda, negamo-la porque a perda não é justa e não faz sentido. A raiva só vem depois, como rede que leva tudo por arrastão, e por fim leva a dor também e desvanece-se.

Porquê eu? O que é que preciso fazer para o ter e volta? O que é que eu fiz de errado? As respostas tardam sempre porque não há respostas dessas no amor. O amor não se escolhe, não é o que costumam dizer? Eles também não escolheram. Simplesmente a paixão passou e não revelou o amor na sua passagem. Não é pessoal, não tem nada a ver com vocês. It's not you it's them. O problema não está em vocês, não há nada de errado convosco. Simplesmente, o amor não aconteceu ou desvaneceu-se de forma aleatória, fora do vosso controlo. A única solução é por os pés aos caminho e seguir viagem para um local ameno, onde nos acolham e recebam de braços abertos.

Uma amiga minha falava-me numa associação de apoio a mulheres que amam de mais, porque caiem vezes e vezes sem conta no erro de amar alguém errado.  Mas só o conceito de amar de mais me apoquenta. Não se ama mais nem menos, que o amor não tem medida. Ou se ama tudo ou não se ama, de todo. O problema não está na entrega de corpo e alma. Está no receptor dessa entrega preciosa, que não teve discernimento para reparar no valor da carga.

Meninas, o nosso grande problema é um meio-copo de auto-estima. Falta de auto-estima, por um lado, porque acham que não merecem ser felizes, porque homens porreiros nem pensar. São uma seca, não dão pica, já ouvi de tudo. Sabem qual a minha resposta para isso: querem adrenalina façam desportos radicais, não brinquem com a vossa vida. Por outro lado, excesso de auto-estima porque acham sempre que vão ser vocês a mudá-lo. Os filhos da puta, são filhos da puta toda a vida. Os cabrões têm remédio, mas têm de ser eles a ser curados. Este tipo de meio-copo de auto-estima é uma mistura explosiva que vos faz cair no mesmo erro, over and over again.

Todas mulheres já amaram alguém errado. É um mal comum, é um defeito que nos persegue e contra o qual temos lutar com todas as nossas forças. Há que gostar de quem nos faz bem, de quem nos faz feliz. Não interessa gostar de alguém que cumpre os requisitos da nossa ideia de felicidade, corrompida por critérios aleatórios e comédias românticas, e depois passamos a vida numa sucessão de momentos infelizes atrás do cumprimento daquele ideal.

Serem "betos", ou baixos, ou mais novos é um obstáculo mental que têm de ultrapassar. Não se esqueçam que o preconceito que têm para os outros, pode virar-se contra vós e podem ser afastadas por critérios tão falíveis como, não gosto das tuas orelhas. O que é que o amor tem que ver com alturas ou com idades, ou com formas de vestir. Tirem as palas e vejam as oportunidades que se vos apresentam todos os dias, e façam por ser felizes.

E agora, para conclusão do motivational speech, oiçam a música da Carminho, que canta no tom certo, a atitude a manter nesta época de dores de alma.
 
(A foto montagem é péssima mas não encontrei melhor. Para ouvir de olhos fechados)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Morte estúpida...

Morte estúpida, certa e insolente que pairas sobre a vida como ameaça constante do fim indesejado, que atacas indiferenciadamente, sem saber porquê, sem qualquer fundamento ou justificação, só porque sim... Morte estúpida!

Morte estúpida que levas os nossos filhos, os nossos pais, os nossos avós, irmãos, amigos, colegas, vizinhos, um a um, numa cadência inevitável e aleatória e caótica, que nunca vai fazer sentido... Morte estúpida que nunca és merecida… E quando és não apareces... Morte estúpida!

Morte estúpida que abres fossas no peito e na alma de quem perde os que levas contigo e deixas apenas nós na garganta, e noites de choro, e insónias e dores de cabeça. E paras o tempo para os que amam e perdem, mas a vida continua e o mundo tem pressa, e todos voltam a viver como se nada estivesse a faltar, sob a incredulidade dos olhos de quem permanece sem se conseguir mover… Morte estúpida!

Morte estúpida e injusta e cruel… E depois de ti, na ausência de todos os dias seguintes, todos vivem no pânico da possibilidade da tua chegada de rompante, interrompendo a festa da vida, e ainda em choque, fazem as pazes, e amam mais, e não saem de casa sem se despedirem, porque és estúpida e malcriada e apareces sem avisar, e ainda tens a lata de dar aos que ficam a demonstração da preciosidade da vida, Morte estúpida.

Morte estúpida, usurpadora e ladra… Tu roubas os sorrisos, os bons dias, os amo-te muito, os abraços, os jantares, os dias de praia, as viagens a lugares distantes, os feitos incríveis que ficaram por fazer, as danças que ficaram por dançar, os filhos que ficaram por nascer, as mulheres que ficaram por casar… Morte estúpida, estúpida, estúpida…

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Envangelho segundo São Yuri

A caminho do escritório, depois de um almoço repentino em casa de minha avó, parei mais uma vez no semáforo de Sete Rios, onde se vendem os Borda-de-Água, essa publicação que permanece para nos recordar os tempos idos. Normalmente, os vendedores vão variando e os produtos vendidos também, sendo a nacionalidade dos mesmos a única constante. Desde pensos rápidos à revista Cais, ao referido Borda-de-Água ou a simplesmente um obrigada, tudo se vende e se pede enquanto o sinal está fechado.

Normalmente, depois de trancar a porta no cimo da rampa mas sem fechar a janela, vou por ali abaixo a torcer para que não me peçam nada. Até porque tenho imensas dificuldades em dizer que não e fico com a consciência dorida cada vez que minto, dizendo que não tenho nada. Normalmente, para evitar gastar uma renda mensal naquela portagem diária da consciência, dou cigarros em troca de me levarem também o sentimento de culpa. A maioria deles fuma e, por isso, vou-me safando incólume.

Porém, hoje foi diferente.. Pensei que ainda passava no verde, mas o carro à minha frente só andou quando devia estar parado, e lá fiquei eu com a pole position que ninguém quer. No entanto, até tinha umas moedas que tinham sobrado no porta-copos. E por isso, peguei numas quantas e estendi o braço pela fresta da janela àquele homem que me mostrava o Borda-de-Água e umas resmas de pensos rápidos. E apesar de estes sapatos me estarem a dar cabo dos pés, entreguei-lhe as moedas e disse que não queria nada. Era um homem de idade imperscrutável. Entre 35 e 55 nada me pareceria estranho. Pele tisnada, barba curta e alguns grisalhos, envergava um t-shirt velha e suja, farda habitual do seu negócio de rua.

Agradeceu-me e desejou muita felicidade e saúde, a mim e aos meus. Mas quando me preparava para que ele passasse à próxima janela e ao próximo freguês, ele continuou. E do que eu percebi do seu português intermitente em sotaque eslavo, o senhor, a quem carinhosamente apelidei de Yuri, por não saber mais nenhum nome russo, disse qualquer coisa muito importante. Tomei a liberdade de traduzir e adaptar conforme o que consegui perceber:

"Deus ajuda, sabe? Deus é muito bom e ajuda muito. A vida é muito difícil. E a culpa não é do governo. É difícil, sabe? Renda muito cara para pagar, 5 filhos para alimentar, é muito difícil. E apesar de ser difícil acreditar em Deus nessas alturas, eu peguei na bíblia no outro dia, a lá dizia que Deus ajuda, e ajuda mesmo. Deus ajuda sempre. E nós temos de agradecer"

E o sinal abriu.. Enquanto o senhor pregava, consegui apenas balbuciar repetidamente; eu sei, pois ajuda, pois é e obrigada. Ou seja, não me disse novidade nenhuma. Como boa ex-beata-super-praticante que fui, sei a catequese toda, lembro-me do que se tem de dizer na missa, a minha parte e a do padre, sei quando é que é para sentar e para levantar, lembro-me bem das passagens bíblicas. Porém, hoje recebi a mesma palavra que tanto prego, da boca de alguém que, certamente, tem uma vida bem mais difícil que a minha. Isso, fez-me recuperar um bocadinho da fé perdida porque, realmente, aquela mensagem de vida que o senhor me transmitiu como pôde valeu mais que 500 missas. E definitivamente valeu mais do que os 80 cêntimos que lhe passei para a mão.

Devia ter dado mais. Devia ter oferecido um cigarro.