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quarta-feira, 8 de março de 2017

Às que desistiram e às que ainda estão na luta: Feliz dia da mulher!





Nunca te pedi flores, não foi isso que falhou. Pedi-te respeito, atenção, amor até, mas flores não.


Pedi-te que não me exigisses mais do que exiges a ti próprio, pedi-te que fosses equipa em vez de patrão, pedi-te que te lembrasses que dar valor às pequenas coisas do dia-a-dia que vou resolvendo por nós em vez de as tomares como algo adquirido e, bem vistas as coisas, sempre insuficiente.


Se não gosto de flores? Claro que gosto de fores, se não fossem usadas como contrição das tuas falhas. Se fossem apenas flores, claro que tinha gostado. Mas as flores perecem e daqui a duas semanas, depois de mortas, já não existirá mais nada para nos recordar desse teu grande gesto para equilibrar os pratos da balança ou para agradecer o esforço a mais que faço pela equipa.


Porque é que o faço? Bem, duas razões: a primeira é porque se não o fizer, tu não fazes e dás-te ao luxo de declarar a mulher incompetente que sou pelo facto da casa estar assim, a má mãe que sou porque me demorei mais tempo no trabalho, ou a desleixada que sou porque deixei de ir ao ginásio ou porque já nem me esforço para te agradar, que eu antes, no princípio, não era assim. A primeira razão é de facto já não querer mais discutir e ser mais uma vez criticada pelo facto de não preencher todos os critérios de ser uma boa mulher. Eu sou melhor mulher do que tu és homem e vens outra vez com esse ramo de flores como se apagasse todo um ano de críticas infundadas.


A segunda razão pela qual assumo o governo da casa e dos filhos quando esse trabalho deveria ser para uma aldeia inteira e não para uma pessoa sozinha que, no meio disso tudo, ainda tem de encontrar 10 a 12 horas livres para trabalhar, sem esperança de alguma vez ganhar o mesmo que tu, é porque eu fui educada exatamente da mesma forma que tu. Na minha casa também tudo aparecia feito, roupa lavada, comida deliciosa. Também tenho isso como ideal. Tudo impecável. E na minha casa, era uma mulher que tratava de tudo e eu sinto-me culpada por não conseguir fazer igual. Sinto-me estupidamente culpada. E tu que usas essa minha culpa contra mim e criticas, mesmo que silenciosamente, a minha insuficiência todos os dias, hoje que é dia da mulher, vens me com flores?


Logo hoje que me sinto tão culpada por me sentir culpada. Eu sei que não tenho qualquer culpa. O paradigma mudou. Ambos trabalhamos fora de casa desde que à mulher foi reconhecida a existência de cérebro, o que depois do reconhecimento da alma foi uma grande evolução civilizacional. Somos inteligentes, multifacetadas, muitas vezes até melhores que os homens que nos rodeiam, mas isso é melhor que não reparem, para não se sentirem ameaçados. Vivo rodeada de mulheres que se diminuem para não afastar os homens, porque ninguém quer estar ao lado de mulher com opiniões.


Tu fazes ideia o que eu já ouvi na vida pelo facto de ser mulher??? E eu nem sou das que mais padeço com esta condição. Talvez devesse deixar de resistir, eu sei, parar de lutar e resignar-me como a maioria. Tratar eu de tudo, prejudicar a minha progressão de carreira, já mais difícil à partida e faltar eu, mais uma vez, para levá-los ao médico. Talvez devesse deixar-me destas coisas de dizer que sou feminista. Até porque as mulheres, deste cantinho latino da Europa, ainda acham que as feministas ou são lésbicas ou cabras que não fazem a depilação.


Talvez devesse esquecer as meninas que à nascença são afogadas na Índia, ou as que são sujeitas a excisão genital na adolescência, as crianças que são obrigadas a casar, as mulheres que vivem sem possibilidade de decidir o seu destino sem autorização do marido, as meninas a quem não é permitido estudar. Talvez devesse esquecer-me de tudo isso e assumir de uma vez por todas o papel que esta sociedade escolheu para mim, resignar-me e dizer, como as outras, que não sou feminista, justificando com o facto de o feminismo já não ser necessário. Estou exausta e se calhar é o melhor que tenho a fazer...


Nunca te pedi flores, mas obrigada, as flores são lindas e agradeço o gesto, mas a sua insuficiência é de uma atrocidade tal que não me consegui calar. Desculpa lá ter explodido assim. Sim, se calhar são as hormonas ou outra coisa qualquer daquelas que só as mulheres têm de suportar. Deve ser isso. Deixa-te estar no sofá, vou buscar uma jarra.

 


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Do Seu (Meu / Nosso) Jorge

Em 2006, na preparação de mais um Sudoeste com o gang, fui perscrutar o cartaz para tentar compreender o que daquela lista de nomes interminável valia a pena ouvir. "Encontrei" as músicas dos artistas que achei valerem a pena e gravei um CD para ouvirmos a caminho, no estágio de mais um verão que ficou marcado na história da minha vida. Seu Jorge constava da referida compilação. O gang ouviu e aprovou e assim, no dia e à hora marcada, lá estávamos nós, na tenda alternativa com mais 40 pessoas, mesmo ao início da noite.
 
O Seu Jorge decidiu, de cigarro da boca, abrir as hostilidades com um "Não vou nada bem" a roçar o metal, alternado com dezenas de palavrões berrados desafinadamente ao microfone. As minhas amigas ficaram em pânico. Era a tenda alternativa e ali já tinha visto bem pior. E por isso, foi de braços abertos que nos deixámos ficar e recebemos, em primeira mão, um pequeno grande concerto de um músico a seguir. A honestidade da sua desafinação rouca lançada com toda a liberdade no perfeito compasso do funk, samba e mpb, prendeu-me para sempre àquele preto magricela, fazendo dele o Meu Jorge. E desde aí, alguns albuns e outros tantos concertos mais tarde, continuo fiel.
 
Mais uma vez, este ano, numa arena onde cabiam 50 tendas alternativas, lá fui ouvir o meu Jorge que já não era só meu mas de um mar de gente. É um facto, meu Jorge virou moda mas nem isso me impediu de ir vê-lo.
 
E amei cada segundo. Cada balada, cada minuto dos trinta que demorou a recitar mais um texto interventivo, como é habitual nos seus espectáculos.
 
No entanto, à minha volta, multiplicavam-se as expressões de tédio e de arrependimento, porque é que a seca do preto não se cala e toca qualquer coisa para a malta dançar. Tentei não ligar e segui gritando e cantando com o resto dos meus pulmões a alegria que queria manter e contagiar, apesar de tudo.
 
Com a "Burguesinha" e a "Amiga da minha mulher" meu Jorge falou ao coração das massas e as massas responderam na excitação de mais uma música de verão. No entanto, meu Jorge é mais do que duas músicas óptimas para soltar o pandeiro. E isso causou desilusão à burguesia que ansiava dançar repetições da mesma fórmula de seu sucesso. Mas meu Jorge é o Jonhy Depp da música brasileira, que apesar dos blockbusters que lhe trazem muito dinheiro, o qual agradece, não se conforma ao que esperam dele e mantem-se inalterado no talento da sua honestidade atroz.
 
Desde o tive razão, ao menino que vende balas no trem, tudo era tão bom que a minha voz exultava de alegria por saber o privilégio que era lá estar com ele. Já mais para o fim, antes dos hits da noite, ele cantou só mais uma balada, a minha balada, Life on Mars, um cover adaptado para português da música de David Bowie e que faz parte da delícia de filme que é o Life Aquatic. E que, salvo erro, nunca tinha feito parte dos seus alinhamentos nos concertos em que estive presente.  Aquilo era meu Jorge, exatamente à minha medida e eu estava feliz.
 
E o que dizer da ressaca do concerto, quando no dia seguinte a burguesia em peso critica o meu Jorge por ele ser exactamente o que ele, tornando viral um downgrade de Bestial a Besta, literalmente da noite para o dia?
 
Quase nada. É um misto de tristeza por não o compreenderem e não saberem o que perdem; de indiferença, porque sei que é para o lado que o meu Jorge dorme melhor; e de alegria, porque sei que no próximo concerto a burguesia que foi desta vez vai ficar em casa, e pode ser que assim sobre alguma cerveja. Independentemente do local do próximo concerto do meu Jorge, sei que lá estarei.
 
Porque quem gosta, gosta sempre. Enjoy!
 
 
 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Life is not just black or white..there are Fifty Shades of Grey in between

 
Once again, I decided not to judge the book by its cover or even its reviews or outstanding numbers.
 
I bought the book (a friend of mine did, actually) and I started to read it voraciously, as soon as I finished dinner that day. I stopped at page 135 (more or so) in order to be able to sleep some hours before having to go to work. And for the next few days the ritual was the same until I finished it, on a Sunday morning, knowing that I would have to buy the English version of the two other books of the trilogy, since I would not be able to wait until Portuguese translation to come out.
 
Taking into account the above, you must already come to the conclusion that this will not be another bad review of Fifty Shades of Grey. So, if you were looking for one, you have some unfortunate luck because there are plenty around, just not here.
 
At this moment your judgmental thoughts are beguining to rise: "she must be some kind of frustrated soccer mum; poor girl she doesn't know any better, maybe she is not used to read, at least good books; and other prejudicial thoughts that people have when they live above ground, drenched in some kind of pseudo-intellectual superiority that make them feel special. I am not telling that everyone has to like the same books, or telling that if you don’t like this one you must be an arrogant bastard. Not at all. I just don’t agree with people who judge a book by its cover without even reading it, or have an opinion based on what must look better when I am trying to pass as an intellectual.
 
Well, having said this, please find below my impartial review of the book of the moment, as follows:
 
Fifty Shades of Grey is a book for romantics and other beings who still believe that love can, in fact, conquer all. Sounds cheese right? Maybe it is. But, although the author E. L. James may be far from wining a Noble prize, she was able to create, at least, two amazingly challenging characters to live their own love story before your eyes, with all that a love story entails.
 
Yes, it’s about sex too. And money, power and love. And all these ingredients are appealing to the public and sell like Coke in the desert. True.
 
But going back to the love part…This is a story of two completely different people that fall in love with each other and try to overcome their differences by compromising parts of themselves in the name of something more. Sounds familiar? The struggle for power in a relationship, for commitment, the doubts regarding the feelings of the other person, the trust issues, all the questions that may rise in a love relationship are there, incredibly described by the thoughts of the female character, Anastasia Steele.
 
In respect of sex and BDSM practices, it is important to mention that there aren’t so many described in the book, only a few and soft ones, like the good old spanking. Well, and taking into account the story is focused on the beginning of a relationship I think the sex scenes are of an adequate number. The difference between this book and other romances is that the love scene doesn’t stop at the kiss but continues all the way, making you enter the intimacy of that couple. Just that, nothing hardcore about it.
 
Negative points: (i) some of the expressions used by the author are expressions young people do not use for 20 years (for example: holy cow); (ii) the actions of Ms. Steele inner goddess are funny for the first and second time but after 25 times you really don’t care what her inner goddess is doing; and (iii) yes, maybe she blushes to many times throughout the book.
 
Apart from these, I believe the success of the page-turner of the year is well deserved as it embodies a realistic and modern love story that just makes you craving for more. If you are willing to overcome the above mentioned imperfections, and the stigma of being considered dumb for reading it, you have to read this book. The writing is not magnificent as Gabriel Garcia Marques’ is, but life is not just about black and white, perfection or nothing. And, in my opinion, the well-told story of Fifty Shades of Grey deserves the opportunity of considering some other colors. I don’t regret it at all. What can I say, I’m a romantic.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Perspectivas - Física e Metafísica da Miopia


"Os olhos olham e por verem tão pouco procuram o que deve estar faltando e não encontram."

Quando li esta frase pela primeira vez, na minha primeira incursão por José Saramago, perdida no meio de frases com comprimento digno de um capítulo, parei, imediatamente, para a reler. Tinha 15 anos e estava a ler a Jangada de Pedra, e tudo daquela frase, naquele momento, fazia sentido. Provavelmente, será a frase mais pequena que José Saramago escreveu. E para mim é, sem dúvida, a melhor. Sempre a perspectivei no sentido metafísico da coisa, como o retrato de um busca incansável, apenas movida pela fé e pelo instinto, que se vai repetindo no tempo sem desistência, com a curiosidade de se querer saber o que raio se procura. Ou então, como representação daquelas pessoas que vivem com palas nos olhos e que de tão tacanhas nunca encontrarão a verdade.

Hoje, olho para esta frase num sentido físico, tout court. A minha miopia chegou a um nível impossível de suportar sem auxilio externo. Pareço uma toupeira, mal consigo conduzir à noite, power-points em apresentações nem vê-los, cães pretos à noite no jardim, onde é que eles estão?, e as rugas à volta dos olhos e na testa já começam a aparecer pelo esforço facial que faço para tentar ver melhor. Não dá mais!

Hoje, esta frase representa para mim a evidência de que tenho de ir tratar disto, porque sei que com estes olhos posso olhar o que quiser que  não vou encontrar coisíssima nenhuma. Depois de 9 anos de aparelho, queria estar mais uns tempos sem qualquer apetrecho mas parece que não vai dar. Daqui a duas semanas, o meu nome é caixa-de-óculos. O que vale é que o look Geek está na moda. Já não era sem tempo... 8)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Come on baby light my fire (ou a fadinha dos isqueiros)






Disclaimer: Este post é só para fumadores (e alguns ex-fumadores que não sejam fanáticos). Os fanáticos da saúde, do politicamente correcto, médicos e afins que o leiam, por favor abstenham-se de fazer comentários. Eu sei que fumar mata, faz mal à pele, causa infertilidade, prejudica o feto, emagrece e relaxa. Não precisam de dizer outra vez. Enjoy!

Quem fuma (e quando eu digo quem fuma não me refiro a fumadores de fim-de-semana, fumadores sociais, fumadores de copos, fumadores de cigarros com nicotina inexistente, fumadores de cigarros fininhos que sabem a vento, entre outros que tais; aceito os fumadores de cigarros electrónicos, simplesmente, porque acho amoroso e porque sei que são verdadeiros fumadores em sofrimento) sabe ao que me refiro.

Há semanas assim..
Passo semanas em que compro isqueiros numa base quase diária, e chego a casa ao fim do dia e já não sei deles. Por vezes, de tão farta que estou de comprar isqueiros, chego a levar fósforos ou mesmo o isqueiro de cozinha. Pedir lume seria uma opção se os meus companheiros de fumo levassem isqueiro. Na maior parte das vezes, contam com o meu e quando eu não levo é o desespero. Uma vez disseram-me que a causa dos desaparecimentos cíclicos era uma personagem mítica chamada fadinha dos isqueiros, que por vezes escondia os referidos, para gozar com a nossa cara.

Mas hoje tudo mudou. Consegui contar cinco isqueiros na minha carteira, só hoje de manhã. Parece que a fadinha dos isqueiros se cansou por uns tempos de gozar com a minha cara e começou a devolvê-los, foi de férias ou foi gozar com outro. Cinco isqueiros.. Um estava no carro, outros dois, um em cada bolso de um casaco que não vestia há uns tempos, outro numa gaveta no escritório, e outro roubei lá em casa, de certeza.

Tenho-vos a dizer que nas últimas semanas da minha vida a fadinha esteve muito activa. Do género de estar a tentar acender um cigarro no carro (um dos meus hábitos favoritos) e o único isqueiro que tinha caiu-me da mão para aquele sítio, qual buraco negro, entre o banco do condutor e o travão de mão. É claro que tinha o isqueiro do carro avariado e fui sem fumar até casa. Cheguei a ponderar pedir lume ao carro do lado, nos semáforos, mas contive a minha veia doente.

Longe vão os tempos onde bastava uma senhora remexer na sua carteira que vinham dez cavalheiros de isqueiro em punho. Uma senhora nunca precisava sequer de pedir lume, este era-lhe oferecido de uma forma encantadora e paternalista. É verdade que pedir lume é sempre uma óptima forma de iniciar uma conversa com um desconhecido. Acredito que o acto de fumar, principalmente, nos últimos tempos, em que somos obrigados a encarneirar à porta dos edifícios e restaurantes para o fazer, deve ter sido motor, ou pelo menos ignição, de bastantes relações duradouras.

Um homem a fumar pode ser sexy, mas uma mulher a fumar, é ainda mais. Há qualquer coisa de rebeldia e de estatuto que se juntam num cigarro. Obviamente, que não não comecei a fumar para o estilo, sem travar, nas festas de liceu. Comprei um maço e comecei a fumar às escondidas, dos meus amigos, dentro do próprio liceu. E travava e sabia-me tão bem.. Ainda hoje sabe. Cada cigarro que fumo sabe-me quase tão bem como o primeiro, o melhor de todos, aquele que nos chega a arranhar a alma. As minhas amigas dizem-me que lhes dou vontade de fumar, porque fumo sempre com prazer. É um facto. Um para acordar, dois a seguir a cada café, a conduzir, a seguir ao almoço, ao jantar, 10 em cada conversa, dois a seguir a cada momento especial. Tenho sempre a necessidade de aliar os prazeres da vida com um cigarro. Para ficarem ainda melhores. E os momentos difíceis também. E fumar enquanto ando debaixo de chuva miudinha, tão bom (mesmo sabendo que uma senhora não fuma a andar, ou por isso mesmo).

A verdade é só uma: o sonho de um verdadeiro fumador não é conseguir deixar de fumar, é que fumar não mate! E se não nos levar à falência, entretanto, ainda melhor!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Talvez seja por isto que a palavra "original" me encanita...



"Nothing is original. Steal from anywhere that resonates with inspiration or fuels your imagination. Devour old films, new films, music, books, paintings, photographs, poems, dreams, random conversations, architecture, bridges, street signs, trees, clouds, bodies of water, light and shadows. Select only things to steal from that speak directly to your soul. If you do this, your work (and theft) will be authentic.

Authenticity is invaluable; originality is non-existent. And don't bother concealing your thievery - celabrate it if you feel like it. In any case, always remember what Jean-Luc Godard said: "It's not where you take things from - it's whereyou take them to""



- Jim Jarmusch

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

"É provável que coisas improváveis aconteçam"


"Se não fosse ela talvez tivesse morrido, penso nisto muitas vezes. Os joelhos tremiam-me, havia ainda qualquer coisa que me queria sair pela garganta, o coração certamente. A cruel verdade era que, se bem que não acalentasse já qualquer esperança de poder voltar a viver com a minha adorada mulher e gostasse cada vez mais do corpo que me trouxera a sua voz, por quem permanecia perdidamente apaixonado era pela primeira, a que não merecia nada."



Pedro Paixão, daqui

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Das dores de Alma

Disclaimer: Não estou a insinuar que os homens não tenham dores de alma, mas este post é dirigido especificamente às mulheres da minha vida, minhas amigas e outras que tais, que sofrem, neste momento por amor. Minhas queridas, venho aqui hoje tentar animar-vos, por um lado, e dar-vos um bocadinho mais na cabeça, por outro.

Sobre as dores de Alma, tão profundas como as que se instalaram há uns tempos no vosso peito, há muito para dizer. Dizer-vos: I've been there, I've done that, não vos ajuda em nada, mas credencia-me para o que vou dizer a seguir.

Este tipo de dor é a pior de todas as dores que alguém pode ter. Não tem uma cura óbvia ou milagrosa e não vai lá com comprimidos. A única coisa que ajuda a amenizar essa dor é o tempo, que escolhe, nessas alturas, correr estupidamente devagar.

Mas antes de a dor ser passível de desvanecer com o tempo tem de haver a aceitação da situação, a desistência, o ignorar a sua existência, dependendo de cada caso. E até lá, o peso que há no peito é cada vez maior e apertado, e a garganta fecha-se por dentro, expulsando o ar  apenas através de convulsões de choro tidas entre rápidos percursos de carro ou na almofada escondida nos lençóis.

Até que a dor seja passível de desvanecer com o tempo, há que obrigar o corpo a sair da cama, todos os dias, de volta para um mundo que já não faz sentido. Por enquanto. Porque vai voltar a fazer.

Esta dor invisível que quase mata é provocada por desapontamento, incredulidade, atordoamento e perda. E a perda é a que provoca maiores dores. Ao princípio, como qualquer amputado, não acreditamos na perda, negamo-la porque a perda não é justa e não faz sentido. A raiva só vem depois, como rede que leva tudo por arrastão, e por fim leva a dor também e desvanece-se.

Porquê eu? O que é que preciso fazer para o ter e volta? O que é que eu fiz de errado? As respostas tardam sempre porque não há respostas dessas no amor. O amor não se escolhe, não é o que costumam dizer? Eles também não escolheram. Simplesmente a paixão passou e não revelou o amor na sua passagem. Não é pessoal, não tem nada a ver com vocês. It's not you it's them. O problema não está em vocês, não há nada de errado convosco. Simplesmente, o amor não aconteceu ou desvaneceu-se de forma aleatória, fora do vosso controlo. A única solução é por os pés aos caminho e seguir viagem para um local ameno, onde nos acolham e recebam de braços abertos.

Uma amiga minha falava-me numa associação de apoio a mulheres que amam de mais, porque caiem vezes e vezes sem conta no erro de amar alguém errado.  Mas só o conceito de amar de mais me apoquenta. Não se ama mais nem menos, que o amor não tem medida. Ou se ama tudo ou não se ama, de todo. O problema não está na entrega de corpo e alma. Está no receptor dessa entrega preciosa, que não teve discernimento para reparar no valor da carga.

Meninas, o nosso grande problema é um meio-copo de auto-estima. Falta de auto-estima, por um lado, porque acham que não merecem ser felizes, porque homens porreiros nem pensar. São uma seca, não dão pica, já ouvi de tudo. Sabem qual a minha resposta para isso: querem adrenalina façam desportos radicais, não brinquem com a vossa vida. Por outro lado, excesso de auto-estima porque acham sempre que vão ser vocês a mudá-lo. Os filhos da puta, são filhos da puta toda a vida. Os cabrões têm remédio, mas têm de ser eles a ser curados. Este tipo de meio-copo de auto-estima é uma mistura explosiva que vos faz cair no mesmo erro, over and over again.

Todas mulheres já amaram alguém errado. É um mal comum, é um defeito que nos persegue e contra o qual temos lutar com todas as nossas forças. Há que gostar de quem nos faz bem, de quem nos faz feliz. Não interessa gostar de alguém que cumpre os requisitos da nossa ideia de felicidade, corrompida por critérios aleatórios e comédias românticas, e depois passamos a vida numa sucessão de momentos infelizes atrás do cumprimento daquele ideal.

Serem "betos", ou baixos, ou mais novos é um obstáculo mental que têm de ultrapassar. Não se esqueçam que o preconceito que têm para os outros, pode virar-se contra vós e podem ser afastadas por critérios tão falíveis como, não gosto das tuas orelhas. O que é que o amor tem que ver com alturas ou com idades, ou com formas de vestir. Tirem as palas e vejam as oportunidades que se vos apresentam todos os dias, e façam por ser felizes.

E agora, para conclusão do motivational speech, oiçam a música da Carminho, que canta no tom certo, a atitude a manter nesta época de dores de alma.
 
(A foto montagem é péssima mas não encontrei melhor. Para ouvir de olhos fechados)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Carta aberta aos Portugueses

Quem me conhece sabe que é verdade: gosto de ser portuguesa, tenho orgulho no meu país e defendo Portugal com tudo o que tenho contra qualquer ataque. Já tive várias discussões com quem diz que devíamos ser tomados pelos Ingleses ou pelos Espanhóis para sermos civilizados ou com quem diz que somos todos uma cambada de pobres de espírito. Não aceito isso.Não aceito que o meu país seja assim tratado.

Não é uma posição ingénua ou infantil da minha parte. Esta é a posição de quem não baixa os braços perante as adversidades, de quem não desiste do que é seu. E eu nunca vou desistir do país que é a minha casa e dos Portugueses que são meus concidadãos.

Mas na verdade, de há uns tempos para cá, tenho vindo a desiludir-me cada vez mais com Portugal e com os portugueses. E não digo isto pela crise ou pela classe política, ou pela corrupção espalhafatosa que sai impune, sem vergonha pelas ruas. Nem é disso que se trata. Não que me conforme com esse tipo de impunidade que já cansa. Mas é bem pior que isso.

O que me tem vindo a transtornar é a amoralidade, o cepticismo, o ateísmo, o não é nada comigo, o não vale a pena são todos iguais, o ressabianço, a falta de princípios, dos chicos espertos, da desresponsabilização, o esquecimento da civilidade, a iliteracia e o desinteresse geral por qualquer coisa que não afecte cada um, na sua esfera pessoal, no imediato.

Fico doente por ter de dar razão aos críticos quando dizem que os portugueses são comezinhos, atrasados e por civilizar. E por isso escrevo esta carta aberta - porque não me conformo e não desisto de nós, porque no fundo sei que temos valor e valemos a pena. Por isso aqui vai:

Não quero um Portugal que apupa o hino nacional dos outros países e que não sabe o seu hino de cor

Não quero o Portugal do "não voto porque são todos iguais e não vale a pena" ou do "hoje era dia de votar? nem sabia fui para a praia".

Não quero o Portugal da Popota e da Casa dos Segredos, em que as crianças mandam nos pais e entram na adolescência aos 8 anos, com as exigências de roupas e playstations e pouco mais.

Não quero o Portugal das pessoas que se endividam mais do que podem para terem um topo de gama descartável em pouco tempo estejamos a falar de carros, ou de telemóveis, ou de malas e não têm comida para dar aos filhos.

Não quero um Portugal que vire a cara aos seus velhos, seus pais e avós, que são largados ao abandono, que pedem nas ruas para sobreviver, que vasculham caixotes de lixo, que morrem sem que ninguém dê por sua falta.

Não quero um Portugal em que as manifestações se sucedem nas ruas, mas a luta diária pelas melhores condições que se exigem, se perde entre um café e outro e é deixada nas mãos dos outros.

Não quero um Portugal do "tenho direito a ser feliz", quero um Portugal do "vou fazer tudo para ser feliz".

Quero o Portugal da imensidão do mar e da extensão de praias a perder de vista, pontos de partida para mundos que um dia tivemos a coragem de descobrir, do surf e da vela, da pesca que nos foi tirada.

Quero o Portugal do verde, do sol ameno, da cortiça, do cheiro a eucalipto, do barulho da água a correr, das energias renováveis e da inovação tecnológica, da agricultura, do vinho do porto.

Quero o Portugal do respeito por todos, da civilidade e hospitalidade, da entre-ajuda e solidariedade, da igualdade e das oportunidades.

Quero o Portugal do Mourinho, da Daniela Ruah, do Cristiano Ronaldo (apesar de tudo), da Rosa Mota, de Carlos Lopes, de Aristides Sousa Mendes, de Fernando Pessoa, de Luís Vaz de Camões, da Amália, da Marisa, do Eusébio, da Paula Rego, do José Saramago, do Papa João XXI, do Horta Osório.

Quero o Portugal das bandeiras nas janelas, do fado, dos arraiais, da sardinha assada, do fogo de artificio, da broa e do queijo da serra, das queijadas e travesseiros e manjericos.

Quero o Portugal dos castelos, palácios, muralhas, solares, ruínas, pelourinhos, fontes, praças e lugares que a história nos deixou para guardar.

Quero o Portugal das pessoas com opinião, que defendem o que acreditam sem vergonha dos seus ideais.

Quero o Portugal feito por nós, todos os dias, sem desistências e desesperança. Se falharmos a culpa vai ser nossa e não dos que nos precederam ou que virão depois. Quero o meu Portugal muito melhor. Mas não consigo fazer tudo sozinha.

Por isso, como dizia Pessoa: É hora Portugal! Mãos à obra!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Das Saudades que tenho do meu avô

"Nunca tinha sentido a dor da perda. Também não a senti na hora há muito anunciada por todos, mas que tardava sempre e sempre, quase como se ameaçasse não chegar nunca. Chegou, claro. Mas tardou como um grito que se solta no topo de uma montanha, percorre o vale e alcança o outro lado um tempo depois. A dor veio assim, atrasada e acerta-me agora com um murro de mão fechada. De todos, sempre fui o que disse que ainda que te fosses nunca te perderíamos. Pelo exemplo, perdurarias em todos nós, todos os dias, nos gestos pequenos de bondade, nos grandes gestos de humanidade. E assim é. Estive há dias no teu espaço, que foi e continua a ser o meu espaço, a casa onde me recebeste ainda antes de me fazer homem. Deixaram esse trabalho para ti e abraçaste-o com o coração cheio. Ainda lá estava a mesa que se abre ao meio, os bichos de África, o sofá das sestas, a colecção de moedas, arrumada em cima do guarda-fatos. E na mesa que se abre ao meio estivemos todos, os de sempre, já com mais uns quantos que conheceste mas não tiveram a sorte de viver a tua grandeza. Não lhes faltará quem lhes conte as tuas histórias. Por mais que saiba e que grite que também estiveste ali, sentado connosco, a verdade é que não estiveste, porque muitas vezes essas merdas são coisas que dizemos para apaziguar a dor, e para nos enchermos de força, mas não estiveste, o lugar estava vazio, ninguém nos beliscou até doer, não se comeu pão à refeição, não havia uma cabeleira branca nem ninguém para discutir com a avó. Continuas e continuarás a viver sempre dentro de mim, como o meu guia para a vida. Foda-se, mas devias era ter estado naquela mesa. "

Não costumo partilhar textos de outros blogs, não gosto de repetições e de desalojar a prosa do lugar a que pertence. Faço-o hoje, porque se impõe. Obrigada Arrumadinho

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Morte estúpida...

Morte estúpida, certa e insolente que pairas sobre a vida como ameaça constante do fim indesejado, que atacas indiferenciadamente, sem saber porquê, sem qualquer fundamento ou justificação, só porque sim... Morte estúpida!

Morte estúpida que levas os nossos filhos, os nossos pais, os nossos avós, irmãos, amigos, colegas, vizinhos, um a um, numa cadência inevitável e aleatória e caótica, que nunca vai fazer sentido... Morte estúpida que nunca és merecida… E quando és não apareces... Morte estúpida!

Morte estúpida que abres fossas no peito e na alma de quem perde os que levas contigo e deixas apenas nós na garganta, e noites de choro, e insónias e dores de cabeça. E paras o tempo para os que amam e perdem, mas a vida continua e o mundo tem pressa, e todos voltam a viver como se nada estivesse a faltar, sob a incredulidade dos olhos de quem permanece sem se conseguir mover… Morte estúpida!

Morte estúpida e injusta e cruel… E depois de ti, na ausência de todos os dias seguintes, todos vivem no pânico da possibilidade da tua chegada de rompante, interrompendo a festa da vida, e ainda em choque, fazem as pazes, e amam mais, e não saem de casa sem se despedirem, porque és estúpida e malcriada e apareces sem avisar, e ainda tens a lata de dar aos que ficam a demonstração da preciosidade da vida, Morte estúpida.

Morte estúpida, usurpadora e ladra… Tu roubas os sorrisos, os bons dias, os amo-te muito, os abraços, os jantares, os dias de praia, as viagens a lugares distantes, os feitos incríveis que ficaram por fazer, as danças que ficaram por dançar, os filhos que ficaram por nascer, as mulheres que ficaram por casar… Morte estúpida, estúpida, estúpida…

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Nunca pensei..

Nunca pensei que um dia ia ser sócia do Sporting.

Nunca pensei que alguma vez pintaria as unhas de cor-de-rosa Barbie e gostasse.

Nunca pensei querer ser advogada.

Nunca pensei que um dia engomaria uma camisa.

Nunca pensei que um dia encontraria alguém que gosto tanto.

Nunca pensei que conseguiria viver, mais de três anos, abaixo dos 60 kilos.

Nunca pensei afastar-me de algumas pessoas que me fazem tanta falta.

Nunca pensei que aos 27 anos ainda seria estagiária.

Nunca pensei que ter planos para a minha vida pudesse ofender alguém.

Nunca pensei que as pessoas mudassem tanto com a idade e com a vida.

Nunca pensei ser das poucas a manter-me inalterada.

Nunca pensei fazer certas coisas que fiz e me arrependo.

Nunca pensei que ia deixar de ver a vida a preto e branco.

Nunca pensei que andaria de mota numa base periódica.

No entanto, apesar de sucessões de eventos não planeados, totalmente inesperados ou não, vou seguindo o meu caminho, alterando o meu trajecto, dando graças por todos os desvios no percurso. Mas mantendo-me igual, a mesma, euzinha, o mesmo estilo, só que com mais sapatos e roupa de "trabalho". Eu faço e refaço planos, listas de to do's, objectivos e afins, todos os dias, tentando ultrapassar os obstáculos identificados e estar preparada para todos os outros que possam aparecer.

E mais importante ainda é saber que esta é uma escolha minha, que não imponho a ninguém. Quem quer viver sem planos ou sem objectivos definidos ou rumo traçado, terá, na mesma, lugar no meu coração. Eu não tenho por hábito julgar ou ter preconceitos com qualquer forma de vida que as pessoas decidam levar, principalmente, se forem felizes assim. E a maior parte das vezes, só dou conselhos quando solicitados.

Nesta medida, por favor, não me chateiem. Não gostam das minhas escolhas, ambição ou mania do controlo que, ainda assim, só se aplica à minha vida e ao que gostaria de ser e fazer, têm bom remédio! Nunca pensei ter de dizer isto..

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Só se adora a Deus

Tenho muitos ódios de estimação em relação a diversas palavras da língua portuguesa. Não que os vocábulos em si me tenham feito mal algum, coitadinhos. Mas muitas vezes são banalizados de formas erradas ou extremamente irritantes por determinados grupos de pessoas, ao ponto de deixar de conseguir utilizá-los ou fazer um esforço para não revirar os olhos de cada vez que os oiço.

Para além da palavra "original", cujo ódio já expus anteriormente, tenho ódio visceral ao verbo ADORAR, especialmente porque, na maior parte das vezes, as pessoas não sabem utilizá-lo, nem o que significa.

Não sei se por é por ter feito a primária num colégio de freiras, ou por já ter sido "zelota", mas cada vez que oiço ou leio alguém que diz: Adoro-te ou Adoro-te muito ou Adoro aqueles sapatos, oiço resposta automática de um coro de criancinhas histéricas de oito anos a responder instantaneamente na minha cabeça: SÓ SE ADORA A DEUS!!!!!

Quase como reflexo condicionado de Pavlov, era isto que se respondia a quem ousasse proferir o verbo adorar relativamente a qualquer objecto da frase que não Deus, ou qualquer outro dos dois elementos da santíssima trindade (para quem não sabe: Jesus e Espírito Santo). Nem os Santos ou Virgem Maria são passíveis de adoração, mas sim de veneração, de acordo com a igreja católica.

É certo que a adoração não tem de ser necessariamente uma adoração religiosa. No entanto, a utilização leviana que é feita deste verbo, na ânsia de substituir o verbo amar que, como todos sabem, é muito feio de se dizer é completamente incorrecta, estapafurdia e sem qualquer tipo de efeito útil. Senão vejamos:

A adoração é definida no dicionário como amor extremo, excessivo, implicando actos específicos de devoção direccionados a um ser sobrenatural podendo ser um deus ou uma divindade. Ora, apesar de gostar muito de sapatos, não penso serem qualquer coisa de divino e apesar de amar o meu namorado não o acho um deus.

Assim, ao evitar dizer amo-te, substituindo-o por adoro-te está-se a dizer amo-te excessivamente, o que não faz sentido nenhum, malta.

Pode-se achar graça, gostar, gostar muito, gostar tanto, gostar mesmo, estar apaixonado e amar. E por alguma razão as pessoas utilizam a palavra adorar para substituir, indiferenciadamente, as expressões que acabei de referir, sendo que todas têm um significado completamente diferente.

Achar graça acontece quando se acaba de conhecer uma pessoa ou de ver uma coisa que desperta em nós qualquer coisa que nos impele ao flirt inadvertido e descarado, a uma paragem de 10 segundos de frente para uma montra, simplesmente porque sim, porque achamos graça.

Gostar ocorre quando, depois da graça, concluímos que as nossas suspeitas iniciais estavam correctas e aquela pessoa e/ou coisa tem de facto qualquer coisa especial que nos leva a querer conhecer ainda mais.

Gostar muito acontece depois das duas fases anteriores, quando conhecemos melhor a pessoa/coisa em questão, quando já pensamos nela quando não estamos com ela, quando já temos vivências juntos.

Gostar tanto acontece quando o gostar muito já soa a pouco, quando se gosta mais do que muito, quando começamos a ficar preocupados, se o objecto da nossa afeição nos corresponde ou não.

Gostar mesmo ocorre quando se tem a certeza que aquela pessoa/coisa é importante na nossa vida e as coisas poderão não fazer sentido sem ela. Já não há dúvidas nesta fase de ante-câmara do amor.

Estar apaixonado ocorre de um momento para o outro quando pensamos: Merda, já fomos... E o estômago começa às voltas e começamos a ficar ansiosos por não conseguirmos pensar em mais nada. Tudo é perfeito, e novo, e encantador. Falta o ar se não estivermos com o objecto da nossa paixão.

Amar pode acontecer durante a paixão, apesar de esse facto só ser passível de confirmação muito depois. Só quando a intimidade bate e o quotidiano se instala se consegue aferir verdadeiramente se o amor é verdadeiro. O amor verifica-se quando apanhamos roupa suja do chão da casa de banho e a colocamos no cesto da roupa, como gesto automático, sem qualquer tipo de recriminação, sendo que a roupa não era nossa. Quando o objecto do nosso sentimento já se tornou parte da nossa família.

Adorar... Adorar só se adora a Deus!!!!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

I am such a Cliché ou Um Dia de David Nicholls

Toda a minha vida evitei clichés, estereótipos, o que lhe queiram chamar. Sempre quis ser-me, apenas, diferente ou não, tanto fazia, Desde que me fosse, em paz com a minha consciência e princípios, estava tudo bem.
Eu sei que sou a primeira a classificar as pessoas e dividi-las em gavetas. E tal como o direito, as pessoas não o são. Mas não deixam de ser caixas: coloridas ou cinzentonas, mais cheias ou menos vazias, desarrumadas, desgastadas, cheias de purpurinas... As pessoas são caixas que se vão enchendo com o que se apanha no caminho: um amigo que se faz, um livro que se lê, aquela sobremesa, a família, o trabalho, um filme que nos fez chorar ou a música que nos emociona...
Mas as caixas encaixam em prateleiras, e agrupam-se junto às que se parecem com elas, e fazem um esforço de aproximação para ficarem cada vez mais parecidas. E eu nunca tive vontade de ficar igual ou exactamente o contrário de qualquer caixa à minha volta. E sempre quis ter a minha própria prateleira. Ou seja, nunca fiz ou deixei de fazer algo por "ser giro" a não ser se achasse giro e meu achar normalmente é ligeiramente diferente. Muitos podem afirmar que pode ser esse o meu problema. Mas eu discordo.. Até porque se concordasse com eles, mudava (ou talvez não).
No entanto, isto tudo foi para vos dizer que, há uns dias atrás, me descobri numa prateleira cheia de caixinhas iguais à minha. É um facto: SOU UM CLICHÉ!!! Somos todos, diz a Sara, mas eu tinha mesmo a esperança vã de ser uma honrosa excepção.
Tudo começou quando iniciei a leitura de mais um livro para juntar à lista dos livros que iniciei de há dois anos para cá.. Já devem ascender a 20.. E nas primeiras páginas do livro deparei-me com a triste realidade de ser um cliché.. A descrição da personagem feminina e de tudo o que a rodeia parecia uma descrição minha e do meu quarto, há 4 anos atrás. E não estou a falar de uma descrição geral ao ponto de se poder aplicar a toda a gente que conhecem. A descrição era assertiva a este ponto:

"Nos últimos quatro anos, tinha visto um sem-número de quartos assim, semeados por toda a cidade como locais de um crime, quartos onde nunca se estava a mais de dois metros de distância de um álbum da Nina Simone (...)"

"Ela também tinha aquela paixão artística de rapariga pela fotomontagem; havia fotos tiradas com flash de amigas da universidade e da família numa confusão entre o Chagalls e os Vermeers e os Kandinsky, os Che Guevaras e os Woody Allens (...)."

"Tacteando à procura de um cinzeiro , encontrou um livro ao lado da cama. A insustentável leveza do ser, com vincos na lombada (...)"

"O cabelo ruivo-acastanhado estava quase propositadamente mal cortado, cortara-o sozinha, em frente ao espelho, provavelmente (...)"

Não é que me achasse "original" - aliás, sinto asco por essa palavra - porque, normalmente, a palavra original é utilizada em apenas duas situações:
(i) quando alguém se qualifica com esse adjectivo significa que está a fazer qualquer coisa deveras igual a muitas outras coisas que estão a ser feitas por outras pessoas (perdoem-me as PATAVABA mas envergarem todas umas t-shirts iguais a dizer "não sejas igual a toda a gente, o giro é ser diferente" é não só, mas também, um contrassenso); ou
(ii) quando alguém faz qualquer coisa profundamente estúpida ou sem sentido e a única forma de justificar é utilizar a palavra original.
Em todo caso, à excepção do anúncio da sumol que até estava inspirador, esta palavra encontra-se banida do meu vocabulário.
Mas também não julgava ser exactamente igual a um grupo gigantesco de mulheres. O que vale é que essas mulheres devem ter todas mais de cinquenta anos, actualmente. Eu sou um cliché, with bad timing!!! Mas de todos os clichés, este é um dos quais não me importo de ser.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Meio Copo faz anos!!

Dia 27 de Junho de 2007, iniciei a viagem épica de relatar as minhas divagações, desabafos e teorias, neste lugar que transformei em minha casa. Tudo isto sou eu. Quem me conhece, verdadeiramente, sabe disso.
Mais ou menos assídua, inspirada ou talvez não, tenho vindo aqui, a este ponto de encontro comigo mesma, deixar a minha marca no mundo. Este legado que construo há quatro anos mostra que apesar das enormes mudanças que ocorreram nestes últimos quatro anos continuo a ser-me, inalterada.
Os motivos que inicialmente me levaram a construir esta casa, a ter a necessidade de passar para o papel as divagações que se passeavam na minha cabeça, são outros agora, mas a necessidade mantém-se.
Tudo mudou e tudo parece igual: Acabei o curso, comecei o estágio e já trabalho há três anos e meio, perdi as ilusões, encontrei o homem, saí de casa, perdi o meu avô, ganhei dois cães, perdi 15 quilos, ganhei confiança para ser o que não conseguia ser. Mas leio o meu primeiro post como se o tivesse escrito hoje porque, apesar de tudo sou a mesma que me lembro ser desde que, na minha cama de grades, comecei a encadear pensamentos dispersos e a ansiar o futuro e a desejar cada vez mais e melhor.
Talvez hoje seja mais céptica do que há quatro anos atrás.. Mas o optimismo do copo meio cheio mantém-se inerte, para contrabalaçar o que corre mal. Tenho a certeza que hoje sou muito mais feliz e completa, apesar de conseguir vislumbrar ainda um longo caminho a percorrer.
Obrigada a todos os que fazem ou fizeram parte desta viagem.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

"Hoping for the best but expecting the worst.."

Esta é a essência do meio copo. Concretizando,

De pés bem assentes na terra, tendo sempre presente a Lei de Murphy, mas sempre com a cabeça na nuvem número 9 e na esperança naive de que, talvez, até haja possibilidade de as coisas correrem bem.

Sempre preparada para o pior: com um kit de sobrevivência para o caso de tsunami, na esperança de não levar com um carro flutuante em cima, já que com o colete salva-vidas não me vou afogar.

Tendo sempre um plano B. Um plano de vida a seguir, para o caso do plano em vigor não poder ser levado avante. Uma saída de emergência.

Retirando sempre o bom que vem com as coisas más, mas antecipando sempre o tudo de errado que pode acontecer inesperadamente de uma situação aparentemente tranquila e feliz.

Quero pensar que estas intermitências entre o catastrofismo e o optimismo desmesurado representam um equilíbrio, um meio copo, e não os devaneios de uma bi-polar em negação.

Vista de fora talvez seja difícil de entender mas, sinceramente, é assim que eu sou. E para mim, não faz sentido ser de outra forma.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Imprescindível é...

..Uma chávena de café, logo pela manhã.

..Nunca deixar de se ser quem se é – a não ser que se seja um completo idiota e aí recomendo vivamente que deixem. Eu sou-me sempre!.. mais ou menos moderada, dependendo das ocasiões.

..Ter cigarros em casa quando vou dormir. Quando não os tenho aparecem as insónias e lá tenho eu de ir à bomba das amoreiras.

..Dar festas no Zé e na Concha. E beijinhos e abracinho e patinha. E chegar a casa e ser recebida todos os dias por dois seres em êxtase.

..Beber água. A sério, é mesmo, senão morremos.

.. E respirar, do mais imprescindível que pode haver.

.. E Sonhar acordada, e desejar sempre mais e melhor.

.. que o amor seja total.. all in, sem medo e sem reservas, que de outro qualquer modo não é amor, mas um sentimento egoísta de querer estar confortável sem estar sozinho.

.. em cada ano, o primeiro mergulho no mar, e todos os que se seguem.. e que sejam muitos.

..Passar no exame de agregação, à primeira se Deus quiser e o corrector ajudar.

.. Ter a noção. Sempre fui da opinião que cada um tem a lucidez que pode aguentar, porque de outra forma cortavam os pulsos quando se olhassem ao espelho ou se ouvissem falar, ou mesmo se fossem vítimas das suas próprias atitudes. Mas mesmo não havendo lucidez é imprescindível ter noção.

.. Dar valor às conquistas, aos dias de sol, a um gesto de carinho, a ter emprego, a um bom jantar, aos amigos que permanecem, à família que apesar de tudo é o nosso porto de abrigo, a ter descoberto aquela música, a ter encontrado aquela pessoa, e agradecer sempre, todos os dias, e ser feliz com o que tenho hoje, até ao dia em que tenha mais. E aí, dar de novo graças.

.. Aceitar com tranquilidade o que não tem solução e suplantar os obstáculos ultrapassáveis, um de cada vez.

.. Saber que vou para casa e estás à minha espera.. ou depois ficar à tua espera, não faz mal. O que interessa é saber que estamos juntos.

.. Nunca desistir do que vale verdadeiramente a pena e ter o discernimento necessário para identificar o que vale e o que não.

.. Agir sempre como se estivéssemos a ser observados e dançar sempre como se não estivesse lá ninguém.

.. Cantar.

.. Escrever sem parar.

.. O teu sorriso ao acordar.

.. Não fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós.. Senão por outra razão, porque o Karma é lixado.

.. Engolir sapos.. é desagradável mas forma o carácter.

.. Aprender com os erros.

.. Respeitar todos os que se atravessam no nosso caminho.

.. Ver filmes a preto e branco e chorar com o final feliz.

.. Comer bem.

.. Apanhar sol.

.. Andar à chuva.

.. Ter saudades dos que estão longe.

.. Viajar

..

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Manisfesto do novo ano

Este ano vou ser mais, muito mais e bastante melhor. Vou ser tudo o que quero ser, já que não posso fazer tudo o que quero a todas as horas. E irei mais longe do que alguma vez fui e voarei mais alto.. Este ano vou viajar mais e trazer comigo mais pedaços deste mundo ainda estrangeiro de mim, mas não por muito tempo. Vou fazê-lo meu. E vou partilhar mais, prometo. E se falhar podem cobrar. Este ano vou trabalhar mais e melhor e ultrapassar os obstáculos que ainda me restam para ser plena na profissão que me escolheu. E vou ler mais, muito mais, porque o tempo foge de nós e a memória também e saber é preciso. Este ano vou cuidar mais de mim... Vou beber mais água e comer melhor e exercitar o corpo que é casa desta alma que quer viver muito e bem. Vou comer mais fruta e vegetais e fugir das batatas fritas e da Coca-Cola como se fugisse da lava de um vulcão. Este ano vou dançar e cantar mais e mais alto... Este ano vou amar-te ainda mais (como se fosse possível) e melhor (isso sei que é) e vou continuar a cuidar de ti e dos nossos, melhor do que no ano anterior. E vou ser mais arrumada e vou lavar mais vezes o carro. Este ano vou passear os cães logo de manhã cedo, antes mesmo de acordares com esse teu sorriso quente de almofada em resposta ao meu “bom-dia querido, está na hora”. Este ano vou estar mais com os amigos, tantos e tão bons e que hoje pouco vejo mas dos quais sinto tanta, mas tanta falta (se não fosse o Facebook já não os reconhecia – Salvé o Facebook!) Este ano vou poupar mais: dinheiro, energia, água, tristezas. E vou deixar de me preocupar com o que não interessa e de remoer obsessivamente nas subtilezas que capto nos sorrisos disfarçados dos outros ou nas frases encobertas de simpatia. Este ano vou dormir mais (sim querido, ainda mais) e melhor. Este ano vou ser mais feliz! E vou repetir este manifesto como mantra da minha alegria não me vá eu desviar do caminho certo.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

My Bucket List (or things to do before I die)

Como disse anteriormente: “As listas são uma ajuda essencial em tempos de caos”. Porém, mesmo em tempos de paz (atribulada), encontro grande felicidade quando faço listas, sobre tudo e sobre nada. É a forma que encontro de verter no papel, a necessidade de organização que me persegue e de desocupar a cabeça de listas de coisas que vou repetindo como mantra para não caírem no esquecimento.

Assim, e mais uma vez, venho partilhar convosco uma lista muito importante (se não a mais importante): a minha “bucket list” ou em português “a lista da bota”, na medida em que, enquanto os americanos “kick the bucket” (pontapeiam o balde) quando morrem, os portugueses “batem as botas”. Nestes termos, venho apresentar-vos a lista de coisas que quero fazer antes de morrer, cujo âmbito de aplicação não inclui as coisas que quero fazer se ganhar o Euro-milhões – essa é uma lista à parte que publicarei quando for esse o caso. Eu sei que o assunto é um bocado tétrico demais para constar de uma lista, mas há coisas que eu não quero correr o risco de serem esquecidas.

Normalmente, as três coisas que indispensáveis numa bucket list são: ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore… Normalmente, as pessoas fazem esta lista quando estão prestes a morrer, como wall of shame dos seus fracassos e arrependimentos. No, not me, eu faço esta lista agora porque, efectivamente, quero ter tempo de fazer todas estas coisas. Eis a minha lista de coisas a fazer antes de morrer (sem prejuízo de a poder ir alterando ao longo da vida):

  • Ter filhos (daqui a uns bons tempos) e ensiná-los a serem melhores seres humanos que eu;
  • Escrever um livro;
  • Plantar uma árvore;

&

  • Dar um concerto (tive essa experiência há uns tempos enquanto guitarrista mas o que eu quero mesmo é cantar);
  • Viajar para longe contigo
  • Aprender a tocar piano;
  • Aprender a dançar tango;
  • Andar de asa delta (de preferência no Rio de Janeiro);
  • Comprar uma casa;
  • Ter uma casa junto ao mar para as férias;
  • Fazer mestrado;
  • Surfar melhor;
  • Ter um restaurante;
  • Andar de balão;
  • Fazer bungee jumping;
  • E Queda livre - com pára-quedas;
  • Conhecer o mundo (remetemos para a lista de places to go que terá de consistir uma lista à parte que se juntará como Anexo I oportunamente);
  • Ler muito mais (Lista de livros será o Anexo II);
  • Viver uns tempos no estrangeiro – de preferência Zanzibar ou paraísos afins;
  • Casar contigo;
  • Tirar o curso de Economia;
  • Mudar a vida de um desconhecido (para melhor);
  • Fazer um safari; [to be continued / completed / updated]